Sábado, 25 de fevereiro de 2023

Destino: Alepo

 

Depois dos dias passados no Iraque celebrando os 400 anos da presença dos Carmelitas nas terras de Abraão (17-24 de fevereiro), com celebrações vivas e cheias de comunhão com os cristãos do Iraque, com a família do Carmelo, com irmãos e leigos provindos da França, Egito, Líbano e Itália, junto ao arcebispo latino de Bagdá, Monsenhor Sleiman, Carmelita Descalço…. Estou fazendo este périplo pelo Oriente Médio com a fiel companhia de Christophe-Marie, Definidor francês.

Voamos para Beirute (Líbano), a terra mítica dos cedros, cuja beleza e glória a Bíblia canta. Aqui o Carmelo tem uma presença viva e rica: várias comunidades de frades, duas de carmelitas descalças, comunidades do Carmelo Secular, escolas, casas de formação, compromisso intenso com a Caritas Nacional etc. Terra duramente provada por uma brutal crise econômica de consequências duríssimas. Muita imigração proveniente da guerra da Síria e de outros países. Aproveitamos a coincidência de nossa passagem até a Síria para acompanhar os irmãos da Semiprovíncia do Líbano, que se reúnem em assembleia plenária para dialogar sobre a missão e os desafios da formação, como parte da preparação do Capítulo Provincial.

Chegamos tarde da noite a Hazmieh (Beirute) no dia 24 de fevereiro e celebramos a via-sacra com os frades e os fiéis, com preciosos cantos. No dia seguinte, vamos mais para o norte, a Trípoli, à comunidade de Mijdlaya. Depois do jantar começa nossa viagem à Síria. Leva-nos o Padre Raimundo, provincial, muito experiente nessa aventura de passar pela Síria.

Demoramos mais ou menos uma hora para chegar à fronteira e aproximadamente outra hora para passar pelos três ou quatro controles libaneses e os controles sírios. Ao final, graças às gestões e à aptidão de Raimundo, entramos no território sírio. Os controles militares e de polícia são constantes. São 14:45h.

Mais outra hora de caminho até nosso ponto de encontro com Irmã Anne, priora das carmelitas de Alepo, que foi pegar-nos com Levan, o motorista. Homs, a 40 quilômetros da fronteira, é nosso ponto de encontro.

Levan nos conta a aventura sobre esses dias. A partir do terremoto, com sua mulher e os dois filhos, dorme no mesmo carro em que estamos. Faz três semanas que o carro é seu refúgio à noite.

Muita gente não voltou às suas casas. Os maristas alojaram em torno de 800 pessoas; os salesianos, cerca de mil, muitos em seus carros. Voltam às suas casas durante o dia, à noite sentem medo. Alguns tremores de terra voltaram a acontecer, em menor escala.

Ao entrar na Síria, adentramos uma paisagem difícil de definir. Quilômetros sem fim de cidades devastadas pela guerra. Como esqueletos sem alma. Em algumas cidades ou povoados vemos as pessoas sentadas, conversando, e as crianças brincando. Com bastante frequência, alguns pequenos rebanhos de ovelhas. O sol se esconde aproximadamente às 18:30h.

Chegamos ao mosteiro das carmelitas às 20:30h. Recebem-nos duas mulheres refugiadas e uma jovem que ajudam a levar para dentro da casa as frutas e caixas que trouxemos. Dão-nos as boas-vindas. Dizem-nos que nossa presença ilumina Alepo (saudação tipicamente árabe).

Conversamos animadamente com as Irmãs. Muita alegria por nos encontrarmos. Relatam-nos algumas impressões desse tempo, do dia do primeiro terremoto: às 4 da madrugada. Tudo mundo saiu para a rua do jeito que estava, de pijama, descalço. Estava chovendo, fazia muito frio. Aqueles que puderam se protegeram em seus carros. Estão com muito medo de voltar para casa.

Em seguida, as monjas começaram a receber pessoas e famílias que pediam para ser acolhidas aqui. Há agora umas 50 pessoas vivendo no recinto do mosteiro.

As monjas contam que, em um segundo terremoto, a imagem da Virgem no coro começou a mover-se para a frente, assim como o jarro de flores. Elas ficaram paralisadas. Irmã Hilda relata que, antes do terremoto, o cachorro entrou em sua casinha, muito agitado; e, subindo na cama, a cavoucava, querendo dizer alguma coisa…. Ela o colocou para fora da cama e continuou dormindo. O cachorro ficou ao lado da cama, como com um gemido. O terremoto começou apenas alguns minutos depois dessa reação do cachorro… os cães e seu sexto sentido.

São 20:00h e as Irmãs prepararam um jantar delicioso, no qual não faltam produtos do país e doces típicos. Há uma chaminé acesa na sala de estar e dois quartos muito bem arrumados.

A acolhida tão generosa contrasta com a desolação de fora, da qual só vimos uma pequeníssima parte.

Encontramo-nos com voluntários da Sociedade de São Vicente de Paulo, que vêm trazer comida. Mesmo que já tenhamos jantado, empenham-se para que também recebamos nossa porção, uma espécie de torta de batatas que – garantem-nos – é muito gostosa. Em todos os momentos aceitamos aquilo que nos oferecem.

Saudamos uma das famílias que há aqui, com um casal de filhos. Em breve descobriremos que são muitas famílias com muitas crianças mais. Um casal nos pede, por favor, que os levemos à Espanha ou à Itália, onde quer que seja. Já não têm nada aqui. Saúdam-nos com um grande sorriso, agradecendo nossa presença. Pedem-nos orações.

O dia termina com o agradecimento por ter podido chegar até aqui e poder trazer um pouco de proximidade e consolo.

 

Domingo, 26 de fevereiro de 2023

 

Está fazendo muito frio. Não há calefação. A cama era uma coleção de cobertores e alguns edredons. Não há água quente em nosso quarto, só quando o sol aparece. Por volta das 05:30h – contam-nos depois – houve outro pequeno terremoto. Vamos à oração com as Irmãs. São 6 da manhã e ouve-se ao longe o canto suave do muezim. A capela é recolhida e tem um pouco de calefação. Uma capela muito sóbria e bonita, que convida ao silêncio. Desenhada por Irmã Hilda, arquiteta.

Sente-se uma alegria especial por estar aqui com elas e com essas famílias. Ainda que sejam só dois dias. A sensação de estar no lugar adequado, tornando presente toda a Ordem, confortando e deixando-nos entrar no silêncio de sua oração íntima com Jesus sofredor e tenda aberta ao mundo.

Encontramos uma das famílias: Mirna, Hana, Satina, George. Satina está cursando o terceiro ano de Matemática. Falta-lhe um para terminar. Está muito magra. Pergunta-nos, quase chorando, se podemos ajudá-la a sair da Síria: “aqui não há nenhum futuro”. Não temos palavras, nem resposta. Só oração. A maioria gostaria de sair daqui, desse horror. Mas quem reconstruirá a Síria? Quem batalhará a partir de dentro para levantar as ruínas e alentar uma esperança que só pode nascer do próprio povo da Síria? Como reconstruir tanta destruição?

Conversamos com mais refugiados: Mina, Nayla, Ghada, Daud. Mina trabalha na Caritas e daqui vai ao trabalho todos os dias. Conversamos com sua mãe e sua tia. Mariam é, talvez, a menor dos refugiados e nos ronda o tempo todo. Com sua mochila de senhorita mais velha, de família muçulmana. Michel e Mary, com seu filho Gad, nos receberam ao chegar; também nos perguntam se podemos fazer algo para ajudá-los a sair do país.

Encontramo-nos com as crianças que fizeram de uma árvore o seu refúgio particular, cercando-a com uma espécie de muralha, com uma porta de entrada. Escalar a árvore é também uma aventura, à qual algum de nós se associa, para regozijo das crianças.

Às 16:00h visitamos o Vicariato Apostólico dos Latinos de Alepo. O vigário, Raimundo Girgis, franciscano, nos recebe na porta. Raimundo é especialista em direito canônico para as Igrejas orientais. Conversamos animadamente. Padre Hugo Fabián Alániz, um sacerdote argentino do Verbo Encarnado, une-se à conversa. Conversamos: o medo se apoderou das pessoas. Receberam aqui 130 no primeiro terremoto e 170 no segundo tremor de terra. Os franciscanos, aqui ao lado, receberam 4000.

Raimundo celebra a missa nas carmelitas aos domingos. Fala-nos de não perder a esperança. Recomenda vivamente as pessoas a não sair do país, para trabalhar para superar a situação juntos. O serviço militar leva consigo grande parte da juventude. São oito anos obrigatórios no exército. A partir dos 18.

Raimundo nos recomenda saudar ao Núncio, cardeal Mario Zenari, que vive em Damasco. Falo com ele por telefone, que agradece muito a chamada.

Expressamos nossa proximidade a nossas Irmãs em seu livro de visitas, declarando o sentimento de todo o Carmelo, monjas, frades e leigos com elas:

Era um sonho vir a Alepo para fazer-lhes uma visita e poder partilhar com vocês a alegria de nossa vocação. Agradeço a Deus por estes dois dias aqui em sua casa, aberta a todos os refugiados. Vocês são, em sua fraqueza, uma palavra do Evangelho do Carmelo, um humilde testemunho do modo como Deus é casa e é morada para aqueles que sentem medo e que estão desolados. Que Deus seja para cada uma de vocês fonte, alimento, esperança e amor para sempre. Estou orgulhoso da oferta e da presença de vocês aqui. Continuem a dar a vida com entusiasmo e simplicidade. Vocês foram para mim um dom de esperança e de fé de que o Carmelo renascerá segundo o coração de Deus. Em profunda comunhão, cada dia na Eucaristia. Deus as abençoe.

 

 

Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

 

Nosso último dia em Alepo nasce. Poucos minutos depois das 5 da manhã, da mesquita ouve-se novamente o muezim: soa como um lamento contínuo, que é muito agradável. A eletricidade volta nesse momento.

Não queríamos ir embora de Alepo sem visitar a cidade. As zonas mais devastadas. O convento das carmelitas está solidamente construído e não sofreu danos. Mas nos falaram de outras partes desoladas da cidade.

O Irmão George Seba, marista, comprometeu-se a fazer um passeio conosco por Alepo. E posso dizer que a impressão desse passeio nunca se apagará em nós. Durante três horas e meia pelas ruas de Alepo, com os olhos bem abertos e a alma emocionada. Primeiro percorremos os jardins cheios de barracas de campanha, furgões e caminhões transformados em casas ambulantes, filas largas de pessoas para recolher o pão ou os alimentos, muita gente nas ruas e sentada nos parques.

Avançamos para a parte da cidade mais danificada pela guerra e também pelo terremoto. A destruição da guerra é interminável. Edifícios e casas bombardeados e derrubados. Temos que pedir a George que nos explique o que foi causado pela guerra e o que foi causado pelo terremoto.

Em meio a tantos edifícios derrubados, vemos crianças brincando, pessoas nos mercados, homens tomando chá na rua, mulheres indo e vindo com seu véu, uma criança com o irmãozinho na bicicleta, algumas pessoas que tomam algo junto à cidadela de Alepo: a sensação de uma vida que desperta dos escombros e se põe a caminhar, sem fugir.

Visitamos também uma loja típica com montanhas de sabão de Alepo. Uma loja com todo o encanto do Oriente Médio. George preparou para nós um pacote com alguns sabões. Durante esses dias experimentamos acolhida, amabilidade, sorriso; acenderam a lareira para nós, deram-nos sabão de presente, todos os dias as mulheres refugiadas preparam algum prato típico para nós. Com as carmelitas não conversamos muito sobre a tragédia, ainda que perguntemos como a viveram e como estão suas famílias. Mas com elas, principalmente, oramos, visitamos o mosteiro e rimos, contando anedotas que aliviam e trazem esse ar do Carmelo, que reconforta e ajuda a pôr-se de pé mais uma vez. Celebramos a Eucaristia com elas dois dias. É tocante vê-las prostrar-se por terra em adoração no momento da consagração. Uma vida rendida em um sim sem condições. Algumas mulheres frágeis e indefesas, que levam tantos anos sendo presença silenciosa e acolhedora. Valentes e simples, sem alardes. Recolheram no convento as balas que caem e fizeram um rosário com todas elas. Mostram-nos também uma caixa cheia com mais projéteis. Tornou-se muito famoso o míssil que caiu na horta, sem explodir. Do terraço veem-se alguns minaretes das mesquitas sem suas torres.

Com nossas Irmãs experimentamos uma familiaridade e a atmosfera teresiana dos irmãos que se protegem e se apoiam. Estes são os nomes das Irmãs que vivem e oferecem sua vida aqui em Alepo, para que orem por elas e com elas:

Marie-Thérèse KHACHO (Síria);

Mariam QREIT (Síria);

Anne-Françoise MAURIN (França);

Anne BONNET (França);

Hilda GHAZZI (Síria);

Mary ROUFAIL (Síria);

Laetitia PEYRARD (França);

Marie-Elisabeth KHORANI (Iraque).

Senti na oração, enquanto compartilhávamos o silêncio – que nestes dois dias se fez mais forte para mim – que sua oração perseverante me deu força, que foram elas que nos visitaram e nos confirmaram na necessidade de dar um passo em frente, em meio a tantas guerras e tremores de terra; a necessidade de construir um Carmelo que diz sim, com a audácia dessas mulheres. Onde houver uma comunidade de carmelitas descalças desprendidas de si, alegres, que desafiam o medo e não buscam estar a salvo, acolhendo em sua oração e entrega a história ferida de tantos; enquanto houver um só mosteiro como o de Alepo, sinto-me orgulhoso de ser carmelita e filho de Teresa.

Santa Madre, cuida de cada uma de minhas irmãs, protege-as, dá-lhes o calor interior daquela confiança com a qual revestes teus filhos e filhas na intempérie. Na unidade dessa grande família de refugiados e com todo o povo maltratado da Síria, não permitas que esqueçamos tudo o que vivemos e ouvimos, a esperança com que nos regalaram aqueles que caminham em meio a ruínas e desejam uma terra em paz e feliz.

Em nosso caminho de regresso ao Líbano, visitamos ainda outra cidade importante e igualmente devastada – Homs, a meio caminho para a fronteira. Tony Homsy, SJ, jovem superior, nos recebe na casa dos jesuítas de Homs, onde em 2014 morreu assassinado o jesuíta Frans Van Der Lokht. Vivia na Síria há quarenta anos, era originário da Holanda. Muito comprometido. Oramos em seu túmulo: silêncio emocionado diante da vida dos que se dão até o fim. Recordamos todos os cristãos que morreram na Síria, no Iraque e no Oriente Médio ou se viram obrigados a imigrar para longe, por causa de sua fé. Oramos por todos os que perderam a vida nessa guerra e nesse terremoto. Deus os tenha em sua paz, na casa mais feliz que podemos imaginar.

Teresa de Jesus dizia que somos pedras daqueles que estão por vir… que Deus faça de cada um de nós pedra que edifique, reconstrua e ponha de pé a vida de todos. Mais potente que todas as guerras e terremotos é o poder da oração, a força da comunhão e a esperança que brota no sorriso ressuscitado dos que já não têm nada a perder e cuja única riqueza é dar. Eles, encarnação do Ressuscitado, fazem crer, contra toda esperança, na Terra prometida já aqui.

 

Miguel Márquez Calle, ocd

Roma, 25 de março de 2023

Solenidade da Anunciação do Senhor

 

Passaram-se 400 anos do dia em que os Carmelitas Descalços chegaram pela primeira vez às terras do Iraque. Era em Bassora, no sul do Iraque, não longe do Golfo Pérsico. Se hoje a missão está sob a responsabilidade da Província de Paris, o fundador era português: Padre Basílio de São Francisco. A primeira missa foi celebrada em 9 de julho de 1623 e nós, a família carmelitana – os frades, os seculares, as Carmelitas de São José, as consagradas, aqueles que usam o escapulário e os amigos do Carmelo –, celebramos uma missa de ação de graças no domingo, 19 de fevereiro de 2023, sob a presidência do nosso confrade Monsenhor Jean Sleiman, arcebispo de Bagdá dos Latinos.

Fomos em peregrinação às fontes da nossa fé, dirigindo-nos a Ur da Caldeia, onde visitamos um zigurate e a casa de Abraão.

Prosseguimos nossa viagem, indo a Bagdá para partilhar o testemunho do Carmelo em todos esses anos, e também inauguramos um busto em honra do primeiro carmelita iraquiano, Padre Anastase-Marie de Santo Elias (1866-1947), grande estudioso da língua, da literatura e da filosofia árabe.

 

Em Aleppo, após o terremoto do último dia 6 de fevereiro, todas as monjas estão sãs e salvas. Felizmente, seu mosteiro foi bem construído e não sofreu nenhum dano estrutural. No mosteiro vivem oito monjas.

Sua casa sempre foi aberta, também nos piores momentos da guerra. Acolheu a todos, tanto muçulmanos quanto cristãos, e até um ano e meio estava hospedando uma família com dez filhos, que tinha perdido tudo durante a guerra.

Após o terremoto, as Irmãs acolheram 10 famílias em seu mosteiro. Por isso, umas cinquenta pessoas vivem agora junto a elas. Sua oração se traduziu em uma ajuda material concreta àqueles que sofrem mais, também se estão em grande dificuldade: seu mosteiro não sofreu graves danos, mas, como aconteceu com o resto da população, o terremoto as deixou sem eletricidade e água, com temperaturas abaixo de zero, por causa do rígido inverno na região de Aleppo.

 

Quem desejar ajudá-las, pode fazer uma oferta pelos seguintes meios:

 

Titular: Casa Generalizia dell’Ordine dei Padri Carmelitani Scalzi

Endereço: Corso d’Italia 38 – 00198 Roma

 

Banco: FINECO BANK

Endereço: Piazza Durante 11 – 20131 Milano

IBAN: IT52S 03015 03200 00000 3646278

SWIFT (BIC) Europa – area SEPA: FEBIITM1

SWIFT (BIC) extra area SEPA: FEBIITM2

 

Causale: MONALSY – TERREMOTO

 

 

Padre Norberto Pozzi, 71 anos, é da Província de Liguria. Em 1980, partiu para a República Centro-Africana, onde trabalhou por 8 anos na missão de Bozoum como mestre de obras. Depois de retornar à Itália, tornou-se sacerdote carmelita e em 1995 regressou à capital centro-africana – Bangui – como missionário, trabalhando com grande força e coragem nos vilarejos da savana.

No último dia 10 de fevereiro, enquanto se dirigia ao vilarejo de Bokpayan, a 22 quilômetros da missão de Bozoum, foi ferido na explosão de uma mina terrestre enquanto viajava em companhia de outras cinco pessoas. Ele foi o ferido mais grave: fraturou ambas as pernas, mas a explosão causou mais danos à esquerda. Uma moto o transportou ao hospital de Bozoum, onde foi submetido a uma cirurgia para limpar a ferida e retirar os estilhaços. Chegou a Bangui (República Centro-Africana) em helicóptero e depois, em um avião militar, a Kampala (Uganda), onde sofreu a amputação do pé direito. Em 21 de fevereiro chegou à Itália em caráter de urgência, na esperança de poder deter a necrose da perna esquerda.

Com sua grande vontade de viver e ajudar os outros, Padre Norberto quer retomar sua missão e, se for possível, retornar ao meio de seu povo na República Centro-Africana.

Nós o confiamos à sua oração.

 

Os Carmelitas Descalços de Trípoli e o mosteiro de São Francisco, a Associação Pro Terra Santa, o Conselho Religião e Segurança, a Associação Vida e Reconciliação, a Fundação Adyan, a Rede de Líderes Religiosos de Trípoli e do norte do Líbano organizaram um encontro inter-religioso nos locais da Escola Santo Elias, dos Carmelitas. O título do encontro era: “Diálogo inter-religioso e iniciativa de fraternidade humana. Aprender e colocar em prática”. O encontro se inspirou no documento “Fraternidade humana pela paz no mundo e a convivência comum”, firmado pelo Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar, Sheik Ahmad Al-Tayyeb, por ocasião do 800º aniversário do encontro entre São Francisco de Assis e o sultão Al-Malik Al-Kamil.

O encontro previa testemunhos de líderes leigos e religiosos e tinha o objetivo de promover a educação ao diálogo inter-religioso e à paz, além de sensibilizar as jovens gerações aos princípios e ensinamentos do documento sobre a “Fraternidade humana”.

Em seu discurso, a diretora da escola – a senhora Rita Salama Faisal – destacou a importância desse encontro e seu impacto sobre os jovens, evidenciando que a escola Santo Elias, dos Carmelitas, é um bom exemplo de coexistência e de abertura ao outro. Além disso, desejou que tal iniciativa se renove.

 

Há dois anos um grupo de leigos de diversas culturas se interrogou sobre a possibilidade de fundar uma comunidade do Carmelo Secular em Stella Maris, no Monte Carmelo, e começou a se organizar e informar-se sobre o procedimento a seguir para a sua fundação.

Em 28 de janeiro, em nossa igreja de Stella Maris, após um período de discernimento, aconteceu a cerimônia de admissão dos candidatos. Receberam a Bíblia, as Constituições do Carmelo Secular e o escapulário como sinal da proteção da Virgem Maria do Monte Carmelo e de seu ingresso formal no período de formação. Nos próximos dois anos, estudarão a espiritualidade e a missão dos leigos no Carmelo e na Igreja.

Peçamos ao Espírito Santo que acompanhe essas pessoas que Ele chamou e as ajude a perseverar, para que possam encontrar na OCDS o que seu coração tanto deseja, isto é, a união com Deus e o serviço à Igreja.

 

De 31 de janeiro a 2 de fevereiro, mais de trinta formadores se encontraram para discutir sobre a revisão da Ratio Institutionis. Debateram temas ligados às diversas fases da formação e aos elementos a ser revistos na Ratio. O primeiro dia foi dedicado ao diálogo e à partilha das experiências formativas dos últimos três anos (tendo a pandemia de COVID-19 impedido os encontros). Este ano, foi convidado o Padre Luca Balugani, psicólogo. Tratou do tema da afetividade e da sexualidade na vida consagrada.

No último dia, um momento de recreação levou os participantes à Abadia de Grottaferrata e ao convento carmelita de Monte Compatri, onde está sepultado o corpo do Padre João de Jesus Maria, OCD. Ali foi celebrada a Eucaristia no exato dia em que a Igreja celebra a vida consagrada. Nosso Padre Geral, Padre Miguel Márquez, estava junto conosco naquele dia. Após a celebração eucarística, uma conferência apresentou aos participantes o Venerável João de Jesus Maria: promotor da beatificação de Santa Teresa d’Ávila, terceiro Prepósito Geral da Ordem (1611), autor prolífico, mestre dos noviços e promotor das missões na Ordem. Seu corpo incorrupto se encontra na igreja do convento de Monte Compatri. A apresentação do Venerável foi confiada à sua biógrafa, Laura Isotton – presidente provincial da OCDS da Itália Central – e ao Padre Basilio Visca, OCD, autor de diversas publicações sobre João de Jesus Maria.

 

De 21 a 30 de janeiro de 2023 aconteceu em Yaoundé o primeiro encontro conjunto das Conferências dos Superiores OCD da África francófona e anglófona e de Madagascar. Essas conferências são um elemento importante na vida de nossa Ordem na África e assumem diversas realidades, como a formação comum antes da profissão solene. Pela primeira vez, nossas duas Conferências, que representam 17 países africanos, se reuniram juntas. Pudemos discutir sobre projetos comuns, como a organização de um Congresso carmelitano para toda a África em 2025 ou a colaboração na formação, com o intercâmbio de estudantes.

O Padre Geral – Miguel Márquez Calle – esteve presente conosco durante os últimos três dias. Também pudemos encontrar as monjas carmelitas de Etoudi-Yaoundé e os membros da Ordem Secular do Carmelo, além de celebrar o 25º aniversário do nosso convento de Nkolbisson, na periferia de Yaoundé.

 

De 6 a 16 de fevereiro tivemos a alegria de ter em nosso meio o Padre Geral – Padre Miguel – e o definidor para o Oriente Médio – Padre Christophe-Marie.

Em 12 de fevereiro abrimos as celebrações dos 150 anos do nascimento de Santa Teresa do Menino Jesus. Padre Makoul – Delegado – presidiu a celebração. O Padre Geral fez uma breve homilia, colocando em evidência a doutrina de Santa Teresinha. O amor que todos os egípcios têm por Santa Teresinha é um amor de reciprocidade. A basílica é uma luz espiritual para todo o Egito. Nós, carmelitas, somos chamados a acolher bem o povo no sacramento da Confissão e na direção espiritual. A presença do centro da Ordem no meio de nós é um sinal de comunhão e de unidade.

Agradecemos por essa visita, que nos impele a dar uma resposta à pergunta: que carmelitas descalços queremos ser hoje no Egito?

 

No domingo 15 de Janeiro, o Irmão Serafino da Eucaristia (Melchiorre) foi para casa do Pai eterno aos 90 anos de idade. Nascido em Gioia del Colle (Itália) a 2 de Setembro de 1932, Serafino Melchiorre frequentou a Academia de Belas Artes de Veneza. Fez profissão na Ordem dos Carmelitas a 3 de Junho de 1954. Desde 1955, foi conventual da comunidade da paróquia de Santa Teresa em Roma. Frade artista, aluno de Filippo De Pisis, a sua arte levou-o a participar em exposições nacionais e internacionais. Foi autor de obras emblemáticas como por exemplo as portas de igrejas, das quais há 21 no mundo, incluindo as de Santa Teresa em Roma e Stella Maris em Haifa, Israel.

O funeral teve lugar na quarta-feira 18, na igreja de Santa Teresa, na presença de membros da sua família, frades Carmelitas das várias comunidades de Roma e de uma grande assembleia.

Rezemos por ele e pela sua Província.

 

A família Carmelita na República Centro-Africana está crescendo. No dia 6 de janeiro, três jovens frades (Ir. Aimé, Ir. Alfred e Ir. Wilfrid) fizeram a sua profissão solene entre as mãos do Provincial, P. Saverio Gavotto. A cerimónia foi muito comovente, particularmente quando os pais dos nossos três Irmãos, com os gestos típicos das tradições locais, ofereceram o seu filho a Deus. Após os votos solenes, os três Irmãos foram recebidos com um abraço pela família Carmelita. No dia seguinte, sábado, houve outra celebração, durante a qual os nossos três Professos foram ordenados diáconos, enquanto o Irmão Régis foi ordenado sacerdote.

Na segunda-feira 9, reunimo-nos em Bouar para um dia de reflexão e confraternização, com todos os Padres professos e jovens religiosos da Delegação. Viemos de todas as casas: Bozoum, Baoro, Bangui e Bouar.

A insegurança está a aumentar no país. Nos dias anteriores houve ataques dos rebeldes ao longo da estrada entre Bouar e Bozoum. Na terça-feira 10, quando chegámos a Bozoum para os preparativos da feira agrícola, vimos alunos da escola primária a fugir da escola: homens armados tinham passado por Bozoum. Infelizmente há muito medo, quase uma psicose, em todo o país.

 

De sábado 31 de Dezembro de 2022 a terça-feira 10 de Janeiro de 2023, o Secretário para a Cooperação Missionária, Padre Jérôme Paluku, permaneceu em Goma, na República Democrática do Congo. O objetivo era promover um centro sociocultural na região que terá como objetivo prevenir conflitos inter-étnicos através de atividades socioculturais e desportivas. Representou uma oportunidade para experimentar em primeira mão a complexa realidade da região.

A poucos quilómetros do Aeroporto Internacional de Goma, na estrada que conduz ao território de Rutshuru, é possível ver pequenos abrigos feitos de lonas. Quanto mais se avança, mais numerosos se tornam estes abrigos improvisados. Em Kanyarucinya, a 6 quilómetros de distância, a situação é inimaginável: são cenários macabros que não podem ser descritos. Mais de 53.000 pessoas, deslocadas pela guerra, esquecidas e ignoradas por todos, vivem em abrigos improvisados: sob lonas, abrigos de palha ou apenas uma rede mosquiteira, expostos a todo o tipo de mau tempo. Esta situação é devida à guerra entre um grupo terrorista chamado M23 (Movimento do 23 de Março – apoiado pelo exército ruandês segundo numerosos relatórios da ONU) e as Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC), o exército nacional.

Vários massacres de civis tiveram lugar na região. Em Mungote, Kitshanga, no território de Masisi, várias pessoas que escaparam ao massacre de Kishishe a 29 de Novembro estão amontoadas em abrigos improvisados. Segundo uma investigação preliminar da ONU, pelo menos 131 civis foram executados nesse dia pelo M23, apoiados pelo exército ruandês. O Governo da RDC menciona 273 pessoas massacradas.  Esse grupo e os seus aliados são também acusados de violação, rapto e pilhagem de civis. Em suma, a crueldade atingiu o seu auge.

É neste ambiente que os nossos Irmãos Carmelitas trabalham na cidade de Goma. Como se pode imaginar, não é fácil para eles ver e viver os horrores desta guerra indizível longe da atenção dos líderes internacionais. E que dizer de todas estas populações deslocadas e esquecidas? Não é raro ouvir lamentações como esta: “Se fôssemos ucranianos, eles teriam pensado em nós, ter-nos-iam enviado armas para nos libertar destes terroristas”.

 

Em Novembro, as Ecónomas dos nossos mosteiros, bem como as Prioras, tiveram a alegria de viver um tempo de formação, e de proceder à eleição da Presidente da Associação das Carmelitas Descalças do Oceano Índico, e do seu Conselho.

Os frades restabeleceram as “Jornadas Carmelitas”: um dia de retiro e de formação oferecido uma vez por mês. Destinam-se em particular aos membros da grande família do Carmelo, mas sem excluir todos aqueles que desejam participar. Este ano, optámos por aprofundar o nosso conhecimento da pessoa e da mensagem de Santa Teresinha do Menino Jesus. À vista do número de participantes nas duas primeiras jornadas, é óbvio que existe uma verdadeira sede de conhecer a espiritualidade Carmelita e a figura de Santa Teresinha.

A fim de desenvolver cada vez mais a comunhão fraterna entre os religiosos, especialmente entre os jovens, mas também com vista à nossa formação permanente, organizamos todos os anos uma viagem a um lugar da nossa grande ilha. Desta vez fomos para a parte nordeste de Madagáscar. Estes foram obviamente dias de bela fraternidade.

 

A Assembleia das Carmelitas de Notre-Dame des Iles teve lugar de segunda-feira 14 a terça-feira 22 de Novembro, em Antsirabé (Madagáscar), no Centro Espiritual de Notre-Dame du Fiat.

A Assembleia iniciou com uma sessão dada pelo Padre Jérôme Paluku, ocd (Secretário para a Cooperação Missionária) às Ecónomas e Prioras sobre a gestão dos bens comunitários. A excelente pedagogia do orador e a condivisão em grupo permitiram descobrir rapidamente as chaves para uma boa gestão. O Padre Michel ocd, assistente da Federação, apresentou a figura da priora segundo Santa Teresa de Ávila assim como o discernimento na utilização dos meios de comunicação na vida contemplativa. Depois realizaram-se as eleições. A Irmã Marie-Yolaine Dehal do mosteiro carmelita de Notre Dame du Grand Large, na ilha da Reunião, foi reeleita para um novo mandato de três anos.

A alegria típica dos filhos e filhas de Santa Teresa manifestou-se na atmosfera fraterna do encontro, com danças e momentos de recreação.

Três bispos dinamizaram a Assembleia com a sua visita e partilha. Acolhemos as suas bênçãos com ação de graças! Esta antologia de graças prosseguiu com uma visita ao local da primeira fundação das Carmelitas em Madagáscar, agora dirigida pelos Padres Salesianos.

 

Durante este sexénio (2021-2027) celebraremos o 150º aniversário do nascimento de santa Teresinha do Menino Jesus (2023) e o primeiro centenário da sua canonização (2025). O Capítulo Geral de 2021 decidiu propor à Ordem um ciclo de leitura dos escritos de Santa Teresinha. Um programa de leitura e reflexão foi elaborado, no qual serão propostos cada ano oito textos selecionados, acompanhados de um breve comentário e algumas perguntas. No início de cada mês, as fichas serão acessíveis no sítio da Internet da Cúria Geral. Atualmente, encontram-se as seguintes fichas:

Ficha de Apresentação: Leitura dos escritos de Teresa do Menino Jesus:

https://www.carmelitaniscalzi.com/es/documentos/la-lectura-y-la-reflexion/presentacion-lectura-de-los-escritos-de-teresa-del-nino-jesus/

Folha 1: Cantando a misericórdia do Senhor (Ms A, 2r-4r):

https://www.carmelitaniscalzi.com/es/documentos/la-lectura-y-la-reflexion/ficha-1-lectura-de-los-escritos-de-teresa-del-nino-jesus/

Em complemento, entre os dias 10 e 15 de cada mês, oferecer-lhes-emos um pequeno vídeo através do nosso canal YouTube (OCD Curia). Cada vídeo seguirá a ficha correspondente ao mês em curso e será realizado por uma das Circunscrições da Ordem. Desta forma, poderemos descobrir como Teresa de Lisieux é entendida e lida nos quatro cantos do mundo. O primeiro vídeo já está disponível: https://www.youtube.com/watch?v=QzaV0MsYdXo