De 08 a 11 de Junho de 2023 aconteceu em Fortaleza, Ceará, o XVI Congresso Provincial OCDS Norte/Nordeste da Província São José, que teve como tema central “Minha Vocação é o Amor”. Após dois anos sem a realização do congresso por consequência da pandemia, o mesmo foi ainda mais especial e contou com a participação de Carmelitas Seculares de várias regiões do país e com a presença do Padre Provincial, Frei Emerson de Jesus OCD e dos três Delegados para OCDS, Frei Alzinir Debastiani, OCD, Frei Luís Fernando, OCD e o Frei Wilson Gomes, OCD e da Presidente Provincial OCDS, Rose Lemos.

O Congresso foi conduzido por vários momentos de reflexão, oração, comunhão fraterna e alegria.  Discutiu-se a Espiritualidade Carmelitana, como testemunho autêntico da nossa vocação, abordando a nossa identidade como carmelitas e pertença à Ordem do Carmelo Descalço. Foi colocado a importância e necessidade da promoção vocacional e de uma presença mais ativa das comunidades da Ordem Secular nas atividades na Igreja e com Apostolados que promovam o carisma Carmelitano.

 

No sábado, 29 de abril de 2023, a Comunidade OCDS de São João da Cruz, Melbourne, reuniu-se na paróquia da Igreja do Bom Pastor em Gladstone Park, no Estado de Victoria, para celebrar o primeiro centenário da beatificação de Santa Teresa do Menino Jesus. O Padre Dishan Candappa, OCDS, celebrou a Missa votiva de Santa Teresinha na paróquia para a Comunidade e os demais convidados, tendo colocado sobre o altar uma relíquia de primeira classe da Santa.

Depois da Missa, reunimo-nos na sala paroquial e desfrutámos juntos de um belo banquete de comida bem como de amizade. Haviam duas mesas de exposição com material carmelita: uma dedicada à ocasião e outra com vários opúsculos carmelitas. Foi uma ocasião de grande alegria e bênção. Rezemos para que possamos percorrer a Pequena Via de Santa Teresinha, aprofundando a riqueza da sua vida em Cristo. “No coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor”.

 

Por iniciativa do Pontifício Colégio Russicum de Roma, as relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus e dos seus pais, Luís e Zélia Martin, vieram em peregrinação a Roma de 6 a 16 de junho.

No dia 7 de junho, as relíquias estiveram presentes na audiência geral do Papa Francisco na Praça de São Pedro. O Papa Francisco dedicou a sua catequese a Santa Teresinha, “padroeira das missões”.  Assegurou que a presença de Teresinha era uma consolação para ele e anunciou que lhe dedicaria uma Carta Apostólica este ano. “O Papa Francisco afirmou que a força motriz da missão é precisamente esta ‘força de intercessão impulsionada pela caridade’, e sublinhou que os missionários ‘não são apenas aqueles que vão para longe, e aprendem novas línguas’, mas são missionários também todos aqueles que, onde estiverem, vivem ‘como instrumentos do amor de Deus’; são missionários todos aqueles que ‘fazem tudo para que, através do seu testemunho, da sua oração, da sua intercessão, Jesus se faça presente’[1].

Na quinta-feira, 8 de junho, as relíquias foram acolhidas no Teresianum onde, no mesmo dia, teve início um seminário sobre a santidade em Teresa de Lisieux, com 17 especialistas que partilharam o fruto das suas pesquisas. Às 18h00, a solene Celebração Eucarística foi presidida pelo Padre Geral, P. Miguel Márquez Calle, com a participação de numerosos devotos e membros da grande Família Carmelita, religiosos, religiosas e seculares. No final da celebração, as relíquias foram trasladadas em procissão até à vizinha Basílica de S. Pancrácio, a cargo dos Carmelitas Descalços da Itália Central, para uma noite de Adoração animada por jovens. No domingo, dia 11, as relíquias foram acolhidas, a partir das 8h30, na nossa paróquia de Santa Teresa de Ávila, no Corso d’Italia. Às 10h30, o Padre Geral presidiu à missa solene de Corpus Christi.  Pela tarde, as relíquias continuaram a sua peregrinação romana.

[1] https://www.vaticannews.va/it/papa/news/2023-06/papa-francesco-udienza-generale-zelo-missioni-santa-teresina.html

 

A primeira Jornada do Carmelo no Burkina Faso celebrou-se no domingo, 30 de Abril de 2023, no convento dos nossos Irmãos O.Carm. de Bobo-Dioulasso. 92 pessoas provenientes das cidades de Gourcy, Ouagadougou, Nouna, Dédougou e Bobo-Dioulasso participaram nesta Jornada. Pertenciam à grande família do Carmelo: O.Carm., OCD, Carmelitas Missionárias, Irmãs da Providência de La Pommeraye, Irmãs de Santa Teresa de Avesnes, Irmãs Teresianas (Gourcy), Missionárias da Imaculada (Irmãs da Água Viva), Carmelo Secular, Ordem Terceira do Carmelo e Família Donum Dei.

A missa dominical foi presidida por um novo sacerdote, o Frei Joseph Bassié O. Carm.  A Jornada foi marcada por ensinamentos, perguntas, intercâmbios sobre os temas apresentados, e pela apresentação de cada comunidade ou instituição da grande família carmelita, com detalhes sobre o fundador, o carisma, a génese da afiliação à Ordem do Carmelo e a missão.

A Jornada concluiu-se com um serão cultural e recreativo animado pelo coro de Notre Dame du Mont Carmel de Bobo e algumas actuações a cargo das comunidades religiosas. Esta primeira edição permitiu-nos pôr-nos em caminho uns com os outros, como nos convida o Papa Francisco, como grande família do Carmelo presente no Burkina Faso.

 

O Carmelo Secular tem uma longa história em Cuba. As comunidades das cidades da Havana e de Matanzas continuam a enriquecer as suas respectivas dioceses com a sua vida de oração e de serviço. Tivemos a oportunidade de nos encontrarmos com a Sra. María Marta de la Virgen del Carmen. Na fotografia, podemos vê-la a mostrar a sua certidão de profissão feita na Havana a 15 de Julho de 1955. Há quase 70 anos que é secular e com muita generosidade e alegria continua a sua vida de oração e de serviço.

Há uma Confraria de Nossa Senhora do Carmo na cidade de Santa Clara. Reúne-se na paróquia de Nossa Senhora do Carmo, atendida pelos Padres Salesianos. Todos se sentem membros da Ordem Carmelita e promovem a devoção à Virgem Maria através dos seus diversos apostolados. Alegres na sua vocação, promovem as vocações para que outros possam também experimentar a alegria de fazer parte da Ordem de Nossa Senhora. Pedimos a Nossa Senhora do Carmo que proteja todos os seus filhos e filhas.

 

De segunda-feira 17 de Abril a domingo 7 de Maio de 2023, Nosso Senhor reuniu as Carmelitas do Oceano Índico (Madagáscar, Maurícia, Ilha da Reunião) e de França, para uma sessão de formação de três semanas, em Itaosy, na Centro dos nossos irmãos Carmelitas que estavam reunidos em Capítulo.

Cada comunidade estava representada por uma ou mais irmãs. À escola de Nossa Madre Santa Teresa, aprofundámos os diferentes fundamentos e elementos da nossa vida carmelita. Esta sessão foi muito rica para todas nós e permitiu-nos revisitar a nossa vida em profundidade.

A grande novidade desta sessão foi o facto de as intervenientes serem Carmelitas francesas (Irmã Élisabeth do Carmelo de Surieu e Irmã Sabine-Marie do Carmelo d’Angers), o que completa os ensinamentos dos nossos Irmãos Carmelitas.

Damos graças ao Senhor por tudo o que vivemos juntas sob o Seu olhar, encorajando-nos mutuamente a viver melhor a nossa vida de Carmelitas.

 

No dia 30 de Abril de 2023, realizou-se na cidade de Haifa (Israel) a tradicional procissão de Nossa Senhora do Carmo, popularmente conhecida como Taalat al-Adra (a Subida da Virgem). Cada ano, uma estátua de 900 kg, transportada por homens e mulheres, é levada em procissão desde a Igreja de São José até ao Convento dos Carmelitas de Stella Maris.

Esta tradição remonta à Primeira Guerra Mundial: quando os soldados turcos deram aos Padres Carmelitas três horas para evacuarem o Convento do Carmo, partiram apenas com alguns documentos de arquivo e a imagem de Nossa Senhora. No final da guerra, a 27 de Abril de 1919, a imagem foi reconduzida ao convento em procissão para agradecer a Nossa Senhora por ter protegido a cidade durante a guerra.

Este ano, após as restrições impostas pela pandemia de Covid-19, cerca de 3.000 pessoas da Palestina e de Israel participaram na procissão. Num ambiente festivo, os fiéis percorreram os três quilómetros e 130 metros de subida, cantando salmos e hinos em honra de Nossa Senhora. Estavam presentes vários responsáveis das Igrejas, entre os quais o Patriarca Latino de Jerusalém, Dom Pierbattista Pizzaballa.

Em frente ao Convento de Stella Maris, o Patriarca presidiu à oração conclusiva. Sublinhou a necessidade das vocações à vida consagrada para a Igreja e pediu a Nossa Senhora que interceda para que Deus proteja todas as famílias cristãs.

 

Crédito da foto: © Patriarcado Latino de Jerusalém

 

Em Abril, a Ordem Secular e as Confrarias de Nossa Senhora do Carmo reuniram-se na paróquia de La Sabatina, na Cidade do México. Estiveram presentes membros das comunidades e confrarias de todo o país. Depois de uma solene celebração eucarística, os participantes puderam partilhar fraternalmente sobre a beleza da sua vocação ao Carmelo.

A Ordem Secular elegeu recentemente o seu conselho provincial o qual, em comunhão com todas as comunidades, se compromete a promover a unidade e o diálogo. Por seu lado, as Confrarias de Nossa Senhora do Carmo demonstraram a sua fidelidade à devoção e ao serviço da Virgem Santíssima. O México conta com um grande número de Confrarias de Nossa Senhora do Carmo, algumas das quais muito antigas e com estatutos próprios. Existe uma estreita colaboração entre a Ordem Secular e as Confrarias de Nossa Senhora do Carmo. Cada uma reconhece a vocação única e especial da outra. Todos se sentem irmãos e irmãs, todos membros do Carmelo sob a protecção de Nossa Senhora e muito orgulhosos de estarem ao seu serviço.

O encontro foi pontuado por vários momentos fortes, cheios de alegria e de reflexão. Discutiu-se a identidade, a pertença à Ordem do Carmelo Descalço, a situação actual e os desafios das comunidades. Foi sublinhada a necessidade de promover as vocações e a sinodalidade.

 

Os irmãos da Delegação Geral de Taiwan-Singapura tiveram uma dupla ocasião para se alegrar com a Profissão Solene e a Ordenação Diaconal de três de seus irmãos – Fr. Benedict Mary, Fr. Reginald Marie e Fr. Bartolo Maria. A profissão solene teve lugar a 19 de Março de 2023 e a ordenação diaconal a 5 de Maio de 2023.

Ambas as celebrações tiveram lugar na Igreja dos Santos Pedro e Paulo, na Arquidiocese de Singapura. Por ocasião da Missa de ordenação, os Frades alegraram-se com a presença do Definidor Geral, Padre Christianus Surinono OCD. A ordenação diaconal foi conferida pelo Arcebispo de Singapura, o Cardeal William Goh. A alegria dos Frades foi partilhada com o Povo de Deus, pois todos foram convidados para uma refeição festiva no final da celebração.

 

Em 16 de abril, como paróquia, participamos com alegria do Desfile pela vida e a família, evento realizado pelo Comitê Regional de Coordenação pela Vida.

Pela manhã, os membros de nossa paróquia prepararam nosso carro para o evento, do qual participamos com roupas brancas, balões e cartazes que recordavam o objetivo da manifestação.

Devemos continuar a testemunhar o nosso empenho pela defesa da vida desde o momento da concepção e de toda vida humana, bem como pelo núcleo da sociedade, que é a família.

 

No domingo, 19 de março de 2023, foram aprovados por cinco anos ad experimentum os estatutos dos “Amigos do Carmelo”, que tiveram início em 12 de janeiro de 2017 no convento dos carmelitas de Bujumbura, no mesmo dia em que foi inaugurada a sua atual residência.

Alguns desses Amigos começaram a frequentar o convento a partir dos primeiros dias em que se estabeleceram em Bujumbura, atraídos inicialmente pela disponibilidade para o sacramento da Reconciliação, pela missa matinal – cujo horário harmoniza-se facilmente com o do trabalho – e, finalmente, pela adoração do Santíssimo Sacramento nos dias de trabalho, de segunda-feira a sexta-feira.

A partir dessa atenção pastoral a todos, esse grupo de fiéis viu-se gradualmente em espontânea amizade com os carmelitas, chegando a partilhar ativamente a liturgia, animando-a com cantos e leituras, sobretudo na terça-feira e na quinta-feira. A seguir, mostraram-se solidários entre si e com os carmelitas em diversas situações da vida, a ponto de reconhecer-se como “amigos em Cristo” – conforme as palavras de Santa Teresa de Jesus (cf. Vida 16, 7). Após um processo informal, que durou seis anos, foram encorajados a elaborar estatutos para constituir-se como Associação de fiéis. O provincial solicitou ao Vigário regional que aprovasse esses estatutos. Colocaram-se sob o copatronato dos Santos José e Teresa do Menino Jesus da Santa Face. A agregação dos primeiros dezoito membros foi marcada por um ato de compromisso.

 

Em um clima de alegre fraternidade, celebramos no dia 23 de março a Eucaristia que marca o Dia do Carmelo Secular, por ocasião do seu 429º aniversário. A Eucaristia foi presidida por Padre Victorino Bal, assistente da Comunidade OCDS em nosso país, junto com Padre Javier, nosso pároco.

Ao final da missa, os seculares receberam uma bênção especial dos nossos sacerdotes e foram sucessivamente convidados a entrar no convento, onde os frades tinham preparado um banquete para eles.

Frei Victorino nos disse que a partilha fraterna entre todos os ramos do Carmelo é vital, porque nos permite cultivar a alegria e a amizade que caracteriza o carisma teresiano, para depois partilhá-las com o próximo.

 

No domingo, 19 de março de 2023, o Delegado Provincial da OCDS, Padre Alex Collera, OCD, presidiu a celebração eucarística de ereção canônica da Comunidade São José e São João da Cruz na capela das carmelitas de Upper Camaran-na (Oro City), com a participação de numerosa assembleia.

 

A Comunidade OCDS Beato Maria Eugênio nasceu há seis anos em Boars Hill (Oxford – Inglaterra), depois que a Comunidade Santo Elias se tornou muito grande. Cinco membros se sentiram prontos e inspirados a fundar uma nova comunidade. Esta foi oficialmente ereta em 4 de março de 2023. A cerimônia foi celebrada por Matthew Blake, Delegado Provincial da OCDS, e concelebrada por alguns frades da comunidade de Boars Hill, com a presença de Annette Goulden, nossa presidente nacional; de Cyprian Blamires, coordenador regional; e outras pessoas online. Um almoço e momentos de festa sucederam esse importante evento, marcado por uma caminhada em direção à porta do convento – símbolo do novo caminho de nossa comunidade. Nossas malas estão prontas!

Duas semanas depois, no domingo Laetare, Monsenhor Philip Egan – bispo de Portsmouth – visitou nossa paróquia São João Evangelista, em Wallingford (Oxfordshire). Ficou agradavelmente surpreso por receber uma cópia do documento oficial que traz seu nome e que foi assinado por nosso Padre Geral – Padre Miguel Márquez, OCD – e por Padre Ramiro Casale, OCD, Delegado Geral da OCDS.

 

Sábado, 25 de fevereiro de 2023

Destino: Alepo

 

Depois dos dias passados no Iraque celebrando os 400 anos da presença dos Carmelitas nas terras de Abraão (17-24 de fevereiro), com celebrações vivas e cheias de comunhão com os cristãos do Iraque, com a família do Carmelo, com irmãos e leigos provindos da França, Egito, Líbano e Itália, junto ao arcebispo latino de Bagdá, Monsenhor Sleiman, Carmelita Descalço…. Estou fazendo este périplo pelo Oriente Médio com a fiel companhia de Christophe-Marie, Definidor francês.

Voamos para Beirute (Líbano), a terra mítica dos cedros, cuja beleza e glória a Bíblia canta. Aqui o Carmelo tem uma presença viva e rica: várias comunidades de frades, duas de carmelitas descalças, comunidades do Carmelo Secular, escolas, casas de formação, compromisso intenso com a Caritas Nacional etc. Terra duramente provada por uma brutal crise econômica de consequências duríssimas. Muita imigração proveniente da guerra da Síria e de outros países. Aproveitamos a coincidência de nossa passagem até a Síria para acompanhar os irmãos da Semiprovíncia do Líbano, que se reúnem em assembleia plenária para dialogar sobre a missão e os desafios da formação, como parte da preparação do Capítulo Provincial.

Chegamos tarde da noite a Hazmieh (Beirute) no dia 24 de fevereiro e celebramos a via-sacra com os frades e os fiéis, com preciosos cantos. No dia seguinte, vamos mais para o norte, a Trípoli, à comunidade de Mijdlaya. Depois do jantar começa nossa viagem à Síria. Leva-nos o Padre Raimundo, provincial, muito experiente nessa aventura de passar pela Síria.

Demoramos mais ou menos uma hora para chegar à fronteira e aproximadamente outra hora para passar pelos três ou quatro controles libaneses e os controles sírios. Ao final, graças às gestões e à aptidão de Raimundo, entramos no território sírio. Os controles militares e de polícia são constantes. São 14:45h.

Mais outra hora de caminho até nosso ponto de encontro com Irmã Anne, priora das carmelitas de Alepo, que foi pegar-nos com Levan, o motorista. Homs, a 40 quilômetros da fronteira, é nosso ponto de encontro.

Levan nos conta a aventura sobre esses dias. A partir do terremoto, com sua mulher e os dois filhos, dorme no mesmo carro em que estamos. Faz três semanas que o carro é seu refúgio à noite.

Muita gente não voltou às suas casas. Os maristas alojaram em torno de 800 pessoas; os salesianos, cerca de mil, muitos em seus carros. Voltam às suas casas durante o dia, à noite sentem medo. Alguns tremores de terra voltaram a acontecer, em menor escala.

Ao entrar na Síria, adentramos uma paisagem difícil de definir. Quilômetros sem fim de cidades devastadas pela guerra. Como esqueletos sem alma. Em algumas cidades ou povoados vemos as pessoas sentadas, conversando, e as crianças brincando. Com bastante frequência, alguns pequenos rebanhos de ovelhas. O sol se esconde aproximadamente às 18:30h.

Chegamos ao mosteiro das carmelitas às 20:30h. Recebem-nos duas mulheres refugiadas e uma jovem que ajudam a levar para dentro da casa as frutas e caixas que trouxemos. Dão-nos as boas-vindas. Dizem-nos que nossa presença ilumina Alepo (saudação tipicamente árabe).

Conversamos animadamente com as Irmãs. Muita alegria por nos encontrarmos. Relatam-nos algumas impressões desse tempo, do dia do primeiro terremoto: às 4 da madrugada. Tudo mundo saiu para a rua do jeito que estava, de pijama, descalço. Estava chovendo, fazia muito frio. Aqueles que puderam se protegeram em seus carros. Estão com muito medo de voltar para casa.

Em seguida, as monjas começaram a receber pessoas e famílias que pediam para ser acolhidas aqui. Há agora umas 50 pessoas vivendo no recinto do mosteiro.

As monjas contam que, em um segundo terremoto, a imagem da Virgem no coro começou a mover-se para a frente, assim como o jarro de flores. Elas ficaram paralisadas. Irmã Hilda relata que, antes do terremoto, o cachorro entrou em sua casinha, muito agitado; e, subindo na cama, a cavoucava, querendo dizer alguma coisa…. Ela o colocou para fora da cama e continuou dormindo. O cachorro ficou ao lado da cama, como com um gemido. O terremoto começou apenas alguns minutos depois dessa reação do cachorro… os cães e seu sexto sentido.

São 20:00h e as Irmãs prepararam um jantar delicioso, no qual não faltam produtos do país e doces típicos. Há uma chaminé acesa na sala de estar e dois quartos muito bem arrumados.

A acolhida tão generosa contrasta com a desolação de fora, da qual só vimos uma pequeníssima parte.

Encontramo-nos com voluntários da Sociedade de São Vicente de Paulo, que vêm trazer comida. Mesmo que já tenhamos jantado, empenham-se para que também recebamos nossa porção, uma espécie de torta de batatas que – garantem-nos – é muito gostosa. Em todos os momentos aceitamos aquilo que nos oferecem.

Saudamos uma das famílias que há aqui, com um casal de filhos. Em breve descobriremos que são muitas famílias com muitas crianças mais. Um casal nos pede, por favor, que os levemos à Espanha ou à Itália, onde quer que seja. Já não têm nada aqui. Saúdam-nos com um grande sorriso, agradecendo nossa presença. Pedem-nos orações.

O dia termina com o agradecimento por ter podido chegar até aqui e poder trazer um pouco de proximidade e consolo.

 

Domingo, 26 de fevereiro de 2023

 

Está fazendo muito frio. Não há calefação. A cama era uma coleção de cobertores e alguns edredons. Não há água quente em nosso quarto, só quando o sol aparece. Por volta das 05:30h – contam-nos depois – houve outro pequeno terremoto. Vamos à oração com as Irmãs. São 6 da manhã e ouve-se ao longe o canto suave do muezim. A capela é recolhida e tem um pouco de calefação. Uma capela muito sóbria e bonita, que convida ao silêncio. Desenhada por Irmã Hilda, arquiteta.

Sente-se uma alegria especial por estar aqui com elas e com essas famílias. Ainda que sejam só dois dias. A sensação de estar no lugar adequado, tornando presente toda a Ordem, confortando e deixando-nos entrar no silêncio de sua oração íntima com Jesus sofredor e tenda aberta ao mundo.

Encontramos uma das famílias: Mirna, Hana, Satina, George. Satina está cursando o terceiro ano de Matemática. Falta-lhe um para terminar. Está muito magra. Pergunta-nos, quase chorando, se podemos ajudá-la a sair da Síria: “aqui não há nenhum futuro”. Não temos palavras, nem resposta. Só oração. A maioria gostaria de sair daqui, desse horror. Mas quem reconstruirá a Síria? Quem batalhará a partir de dentro para levantar as ruínas e alentar uma esperança que só pode nascer do próprio povo da Síria? Como reconstruir tanta destruição?

Conversamos com mais refugiados: Mina, Nayla, Ghada, Daud. Mina trabalha na Caritas e daqui vai ao trabalho todos os dias. Conversamos com sua mãe e sua tia. Mariam é, talvez, a menor dos refugiados e nos ronda o tempo todo. Com sua mochila de senhorita mais velha, de família muçulmana. Michel e Mary, com seu filho Gad, nos receberam ao chegar; também nos perguntam se podemos fazer algo para ajudá-los a sair do país.

Encontramo-nos com as crianças que fizeram de uma árvore o seu refúgio particular, cercando-a com uma espécie de muralha, com uma porta de entrada. Escalar a árvore é também uma aventura, à qual algum de nós se associa, para regozijo das crianças.

Às 16:00h visitamos o Vicariato Apostólico dos Latinos de Alepo. O vigário, Raimundo Girgis, franciscano, nos recebe na porta. Raimundo é especialista em direito canônico para as Igrejas orientais. Conversamos animadamente. Padre Hugo Fabián Alániz, um sacerdote argentino do Verbo Encarnado, une-se à conversa. Conversamos: o medo se apoderou das pessoas. Receberam aqui 130 no primeiro terremoto e 170 no segundo tremor de terra. Os franciscanos, aqui ao lado, receberam 4000.

Raimundo celebra a missa nas carmelitas aos domingos. Fala-nos de não perder a esperança. Recomenda vivamente as pessoas a não sair do país, para trabalhar para superar a situação juntos. O serviço militar leva consigo grande parte da juventude. São oito anos obrigatórios no exército. A partir dos 18.

Raimundo nos recomenda saudar ao Núncio, cardeal Mario Zenari, que vive em Damasco. Falo com ele por telefone, que agradece muito a chamada.

Expressamos nossa proximidade a nossas Irmãs em seu livro de visitas, declarando o sentimento de todo o Carmelo, monjas, frades e leigos com elas:

Era um sonho vir a Alepo para fazer-lhes uma visita e poder partilhar com vocês a alegria de nossa vocação. Agradeço a Deus por estes dois dias aqui em sua casa, aberta a todos os refugiados. Vocês são, em sua fraqueza, uma palavra do Evangelho do Carmelo, um humilde testemunho do modo como Deus é casa e é morada para aqueles que sentem medo e que estão desolados. Que Deus seja para cada uma de vocês fonte, alimento, esperança e amor para sempre. Estou orgulhoso da oferta e da presença de vocês aqui. Continuem a dar a vida com entusiasmo e simplicidade. Vocês foram para mim um dom de esperança e de fé de que o Carmelo renascerá segundo o coração de Deus. Em profunda comunhão, cada dia na Eucaristia. Deus as abençoe.

 

 

Segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

 

Nosso último dia em Alepo nasce. Poucos minutos depois das 5 da manhã, da mesquita ouve-se novamente o muezim: soa como um lamento contínuo, que é muito agradável. A eletricidade volta nesse momento.

Não queríamos ir embora de Alepo sem visitar a cidade. As zonas mais devastadas. O convento das carmelitas está solidamente construído e não sofreu danos. Mas nos falaram de outras partes desoladas da cidade.

O Irmão George Seba, marista, comprometeu-se a fazer um passeio conosco por Alepo. E posso dizer que a impressão desse passeio nunca se apagará em nós. Durante três horas e meia pelas ruas de Alepo, com os olhos bem abertos e a alma emocionada. Primeiro percorremos os jardins cheios de barracas de campanha, furgões e caminhões transformados em casas ambulantes, filas largas de pessoas para recolher o pão ou os alimentos, muita gente nas ruas e sentada nos parques.

Avançamos para a parte da cidade mais danificada pela guerra e também pelo terremoto. A destruição da guerra é interminável. Edifícios e casas bombardeados e derrubados. Temos que pedir a George que nos explique o que foi causado pela guerra e o que foi causado pelo terremoto.

Em meio a tantos edifícios derrubados, vemos crianças brincando, pessoas nos mercados, homens tomando chá na rua, mulheres indo e vindo com seu véu, uma criança com o irmãozinho na bicicleta, algumas pessoas que tomam algo junto à cidadela de Alepo: a sensação de uma vida que desperta dos escombros e se põe a caminhar, sem fugir.

Visitamos também uma loja típica com montanhas de sabão de Alepo. Uma loja com todo o encanto do Oriente Médio. George preparou para nós um pacote com alguns sabões. Durante esses dias experimentamos acolhida, amabilidade, sorriso; acenderam a lareira para nós, deram-nos sabão de presente, todos os dias as mulheres refugiadas preparam algum prato típico para nós. Com as carmelitas não conversamos muito sobre a tragédia, ainda que perguntemos como a viveram e como estão suas famílias. Mas com elas, principalmente, oramos, visitamos o mosteiro e rimos, contando anedotas que aliviam e trazem esse ar do Carmelo, que reconforta e ajuda a pôr-se de pé mais uma vez. Celebramos a Eucaristia com elas dois dias. É tocante vê-las prostrar-se por terra em adoração no momento da consagração. Uma vida rendida em um sim sem condições. Algumas mulheres frágeis e indefesas, que levam tantos anos sendo presença silenciosa e acolhedora. Valentes e simples, sem alardes. Recolheram no convento as balas que caem e fizeram um rosário com todas elas. Mostram-nos também uma caixa cheia com mais projéteis. Tornou-se muito famoso o míssil que caiu na horta, sem explodir. Do terraço veem-se alguns minaretes das mesquitas sem suas torres.

Com nossas Irmãs experimentamos uma familiaridade e a atmosfera teresiana dos irmãos que se protegem e se apoiam. Estes são os nomes das Irmãs que vivem e oferecem sua vida aqui em Alepo, para que orem por elas e com elas:

Marie-Thérèse KHACHO (Síria);

Mariam QREIT (Síria);

Anne-Françoise MAURIN (França);

Anne BONNET (França);

Hilda GHAZZI (Síria);

Mary ROUFAIL (Síria);

Laetitia PEYRARD (França);

Marie-Elisabeth KHORANI (Iraque).

Senti na oração, enquanto compartilhávamos o silêncio – que nestes dois dias se fez mais forte para mim – que sua oração perseverante me deu força, que foram elas que nos visitaram e nos confirmaram na necessidade de dar um passo em frente, em meio a tantas guerras e tremores de terra; a necessidade de construir um Carmelo que diz sim, com a audácia dessas mulheres. Onde houver uma comunidade de carmelitas descalças desprendidas de si, alegres, que desafiam o medo e não buscam estar a salvo, acolhendo em sua oração e entrega a história ferida de tantos; enquanto houver um só mosteiro como o de Alepo, sinto-me orgulhoso de ser carmelita e filho de Teresa.

Santa Madre, cuida de cada uma de minhas irmãs, protege-as, dá-lhes o calor interior daquela confiança com a qual revestes teus filhos e filhas na intempérie. Na unidade dessa grande família de refugiados e com todo o povo maltratado da Síria, não permitas que esqueçamos tudo o que vivemos e ouvimos, a esperança com que nos regalaram aqueles que caminham em meio a ruínas e desejam uma terra em paz e feliz.

Em nosso caminho de regresso ao Líbano, visitamos ainda outra cidade importante e igualmente devastada – Homs, a meio caminho para a fronteira. Tony Homsy, SJ, jovem superior, nos recebe na casa dos jesuítas de Homs, onde em 2014 morreu assassinado o jesuíta Frans Van Der Lokht. Vivia na Síria há quarenta anos, era originário da Holanda. Muito comprometido. Oramos em seu túmulo: silêncio emocionado diante da vida dos que se dão até o fim. Recordamos todos os cristãos que morreram na Síria, no Iraque e no Oriente Médio ou se viram obrigados a imigrar para longe, por causa de sua fé. Oramos por todos os que perderam a vida nessa guerra e nesse terremoto. Deus os tenha em sua paz, na casa mais feliz que podemos imaginar.

Teresa de Jesus dizia que somos pedras daqueles que estão por vir… que Deus faça de cada um de nós pedra que edifique, reconstrua e ponha de pé a vida de todos. Mais potente que todas as guerras e terremotos é o poder da oração, a força da comunhão e a esperança que brota no sorriso ressuscitado dos que já não têm nada a perder e cuja única riqueza é dar. Eles, encarnação do Ressuscitado, fazem crer, contra toda esperança, na Terra prometida já aqui.

 

Miguel Márquez Calle, ocd

Roma, 25 de março de 2023

Solenidade da Anunciação do Senhor