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16 maio 2022

16 de abril de 2022 – Sábado santo

É dia de silêncio, atordoante experiência de profundo vazio, na calidez ferida de Maria, a Mãe; no coração de todas as mães, que representam a alma vigilante do mundo e sempre abrigam, em meio a tanta dor, a esperança. Como é surpreendente o dia de hoje, como um abismo de silêncio que encerra algo que ainda não conhecemos e que é sempre rebento! E que amanhecerá… sempre amanhece.

Faltam alguns minutos para as 08:00h em Berdichev e saudamos o Senhor e sua Mãe na basílica. Preparamo-nos para a viagem a Kiev.

Vitaly e seu irmão Olek me levam. É um caminho de três horas, mas depende do trânsito e das dificuldades da entrada. Passamos sem dificuldade por algumas fiscalizações.

Disseram-nos que houve algum projétil sobre Kiev.

Chegam algumas vozes de gente amiga da Espanha e de outros cantos com notícias de perigo em Kiev…

Paramos para tomar um café e abastecer. Só é permitido comprar 20 litros de gasolina a cada vez, mas a moça que atende é da paróquia e enchemos o tanque. Além disso, Vitaly é “famoso” por essas bandas.

Nossa conversa prossegue, muito animada, por todo o caminho.

À medida que nos aproximamos de Kiev, vemos o horror da guerra: tanques, caminhões, casas, edifícios queimados e com marcas de tiros, como esvaziados de sua alma. Casas e restos de veículos que cheiram a um sábado santo desolado, sem vida, sem aparente ressurreição.

Damos uma volta para entrar em Kiev, evitando a estrada principal. Uns 30 quilômetros de volta.

Chegamos à nossa paróquia em Kiev. Josef nos recebe. Quanta alegria por abraçá-lo! Que alegria ter chegado e estar aqui! Aqui se encontra Marek, pároco e prior. E também Benedict, que está encarregado da ajuda humanitária e da atenção aos soldados: nossos três carmelitas agora em Kiev. Hoje está aqui Maciej, um sacerdote polonês que tem uma organização internacional e traz ajuda humanitária à Ucrânia. E, desde a destruição de seu povoado, também estão hospedados um pai e um filho: Andrzej e Daniel.

Alegria do encontro com os irmãos e almoço com Josef e Marek, informando de muitas coisas da guerra e da pastoral destas semanas. Marek fala dos horrores da guerra e mostra as fotos dos bunkers; fala também da atenção aos enfermos e da atividade intensa como pároco. Durante algum tempo, esta foi a única paróquia católica de Kiev. Quando veio Madre Teresa de Calcutá, depois do prêmio Nobel da paz, pediu para ir à missa e a trouxeram à nossa igreja. É uma igreja pequenina e acolhedora. Acompanho Josef na bênção dos alimentos, que é costume típico daqui: os primeiros alimentos que são tomados na Páscoa, doces, ovos de Páscoa e outras coisas. Swieta trouxe ovos de Páscoa para os frades. Dá-me um abraço com muito carinho e me pede a bênção.

Saímos para ver Vitaly, o bispo de Kiev, que nos recebe num lugar muito simples. É jovem, muito cordial. Conversa muito familiar. Agradece-me muito por estar aqui e agradece muito ao serviço pastoral e à entrega dos carmelitas na Ucrânia. É uma hora de diálogo sobre a situação e a Igreja na Ucrânia. Falo-lhe da oração de todo o Carmelo no mundo inteiro: nossa oração por ele, pela Igreja e o povo ucraniano.

Josef me perguntou se não tinha nada para lhe dar de presente e, ao sair, disse ao Senhor: “Vamos ver… o que posso lhe dar de presente, se não me resta nada especial na mochila?” Estava falando com o bispo, penso e meto a mão em meu bolso, descobrindo que tinha uma relíquia do cabelo de Santa Teresinha. Dou-a a ele, que nos diz que é sua santa preferida… Surpresas do Senhor!

Damos uma volta pelo centro da cidade, pela famosa praça de Maidán, a praça da independência da Ucrânia, onde em 2014 morreram baleadas 98 pessoas. Visitamos o lugar da memória dos caídos e pedimos por eles.

Voltamos para casa, visitando alguns lugares destruídos pelos projéteis…

Oramos pelas pessoas que moravam nesses edifícios agora desolados.

É hora de preparar a vigília…

Emoção com toda a Ordem diante dessa noite.

Recordamos Síria, Burkina-Fasso, Peru, Colômbia, Congo, Líbano, Iraque…

Oramos como UM só… pela VIDA QUE NÃO MORRE nem é capaz de ser destruída por nenhuma bomba…

A chegada a Kiev é outro capítulo, diferente de Berdichev… porque aqui se sente o terror da guerra ainda mais patente… os sinais estão frescos e o relato das pessoas é constante… Não posso contar nesta crônica tudo o que escutei. Um dos frades me perguntou se me importava que me contassem esses horrores e lhe disse que não… foram tempos muito longos de conversa. Omito detalhes. Os frades estão em contato com dois capelães que acompanham os soldados e eles mesmos confessam os soldados. Entreguei uns trezentos rosários destinados aos soldados.

A celebração da vigília é simples e emocionante. A capela me parecia uma pequena arca de Noé, um recinto de salvação. A liturgia começa na rua, com uma humilde fogueira e um frio congelante. A duras penas conseguimos manter a chama da vela acesa depois de várias tentativas.

Eu prego e Josef traduz para o ucraniano.

Ao final da celebração, cantos e alegria compartilhada. Longa fila de gente para um abraço, uma bênção e para agradecer muito vivamente por eu estar aqui. Uma jovem me disse que em seu trabalho há 400 pessoas e que 200 fugiram para pôr-se a salvo em um lugar seguro; e que o fato de eu ter vindo era para ela um sinal especial. Assim, casais e famílias passavam para ser abençoados e abraçados. Não me parece estar em um lugar de guerra, há uma sensação fortíssima de comunhão e cumplicidade… uma jovem que perdeu sua casa em Mariupol e agora nos ajuda… uma jovem soldada que me pede a bênção antes de ir para a linha de frente. Dou-lhe meu terço de presente.

E o dia termina com uma conversa amigável, por um tempo de duas horas, com Josef, Marek, Benedict, o sacerdote Maciej, Andrzej (pai) e Daniel (filho). Que tempo mais intenso de experiências vividas. Quanta necessidade têm de contar o que viveram e o que sabem… quanto agradecem a presença. Digo-lhes que toda a Ordem está aqui com eles.

O dia termina, amanhã vamos visitar Bucha, a cidade do massacre. E também outra das cidades mais devastadas, o seminário e outros lugares. Mas amanhã será outro dia; hoje, nas pessoas de Kiev, o Senhor Jesus ressuscitado apareceu para mim sorridente e me abençoou com seu sorriso… uma jovem me abençoou espontaneamente.

Em Berdichev escutei as sirenes cinco vezes; em Kiev, apenas uma, ao sair do bispado. Mas ninguém já está descendo aos bunkers. Se algo cair, cairá; se algo acontecer, acontecerá. Mas hoje Cristo ressuscitou para mim na fé de um povo, em sua esperança. Que homem de sorte por estar aqui! E que vocês estejam aqui comigo!

FELIZ PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO… Ressuscitou o meu Amor e a minha Esperança.