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24 maio 2026

Experiência da Semana Santa na Ucrânia • Padre Miguel Márquez Calle, ocd – Superior geral

Durante a Semana Santa e o domingo de Páscoa, vivi um tempo de celebração e oração com meus irmãos e irmãs na Ucrânia, em comunhão com toda a Ordem e todo o povo ucraniano. Na terça-feira, 31 de março, encontrei uma parte da comunidade das carmelitas descalças de Kharkiv, que se encontra provisoriamente em Jaworzno, na Polônia.

No dia 1º de abril, quarta-feira santa, atravessamos a pé a fronteira entre a Polônia e a Ucrânia; em seguida, tomamos o caminho em direção ao nosso convento-santuário de Berdichev: um trajeto de cerca de nove horas. Sou acompanhado pelo provincial da Polônia – Padre Tadeusz –, pelo Padre Jozef – um polonês da comunidade de Berdichev – e Zenia, um estudante ucraniano. Na fronteira, visitamos a comunidade e a creche das Irmãs do Beato Honorato Koźmiński, boas amigas. Essa Congregação trabalha ativamente na Ucrânia e na Polônia. Às 23:00h, chegamos a Bedichev, onde toda a comunidade está nos esperando.

Na quinta-feira santa – 2 de abril –, visitamos a comunidade vizinha de Gwozdawa, onde dois frades se ocupam desse silencioso centro espiritual. À tarde, em Berdichev, as sirenes ecoam e as crianças da escola situada ao lado do santuário se refugiam em nosso abrigo subterrâneo, sob a igreja. Elas continuam seguindo seu curso de música. Visitamos o escritório de Natascha, que coordena o conjunto do trabalho de ajuda social, de apoio psicológico, econômico e administrativo dividido em diferentes áreas (crianças, pessoas idosas, enfermos, ex-combatentes, famílias etc.). Às 18:00h, celebramos a Liturgia da Ceia do Senhor. Vejo algumas senhoras emocionadas no momento do lava-pés. Uma hora e meia de celebração presidida pelo prior, Padre Vitaly, que é ucraniano.

No dia 3 de abril, partimos para Kharkiv, na região leste do país, uma das regiões situadas próximo ao lugar onde a guerra continua causando estragos. Paramos em Kiev para saudar os frades, depois prosseguimos nossa viagem rumo a Kharkiv: um trajeto de cerca de oito horas por meio de caminhos esburacados e difíceis. Celebramos a liturgia da Paixão do Senhor na capela das carmelitas de Kharkiv. Quatro Irmãs, vindas da Polônia, encontram-se ali atualmente, aproveitando a calma nos combates que agitam a cidade. Celebramos a Paixão do Senhor: quatro Irmãs, quatro padres e quatro fiéis leigos na capela.

Em 4 de abril – Sábado Santo –, de manhã cedo, recebemos a visita do bispo de Kharkiv, Monsenhor Pavlo Honcharuk. A seguir, retomamos caminho para Kiev, onde o bispo, Monsenhor Vitalij Kryvyc’kyj, está à nossa espera na catedral. Visitamos a célebre praça Maïdan, onde se rende homenagem a todas as vítimas da guerra. Um lugar impactante, em recordação do início da guerra em 2014 e em memória dos milhares de mortos a partir de 2022. Celebramos a Vigília Pascal em nossa paróquia de Kiev, na presença de uma multidão de fiéis. O canto do Aleluia é comovente, pela força e a convicção do grito em ucraniano: “Cristo ressuscitou – Христос воскрес !!!”

No domingo de Páscoa – 5 de abril – celebramos a missa na igreja das carmelitas descalças de Kiev. A comunidade, composta por seis Irmãs, acaba de voltar da Polônia depois de ter passado dois anos ali. Elas nos mostram as marcas deixadas por um míssil que caiu a alguns metros do mosteiro. Hoje aproveitamos o dia para visitar uma associação dirigida por Boris (ex-militar e pastor), que acolhe e vem em ajuda às famílias dos soldados falecidos ou desaparecidos, dos órfãos, dos soldados em dificuldade financeira etc. É uma belíssima iniciativa, com a qual nós, os carmelitas, colaboramos ativamente. Visitamos uma casa de retiro onde estão vivendo muitas pessoas refugiadas da zona de guerra e que só puderam levar consigo aquilo que cabia em uma mala. Essas pessoas guardam todos os seus pertences debaixo de sua cama. Nós os abraçamos, abençoamos e lhes oferecemos escapulários e terços. Entramos em alguns quartos e ficamos emocionados por ver os soldados, gratos por nossa visita, que nos mostram com emoção as fotos de seus filhos quando lhes pedimos notícias deles.

Segunda-feira, 6 de abril, é o dia de nossa partida. Abraços e agradecimentos. Um sentimento recíproco de comunhão e de família, depois de ter podido viver juntos, nessa situação tão difícil, esses dias de festa e de solidariedade, de bênção e de encorajamento.