O 5º encontro OCDS da CICLA-Sul teve lugar na cidade de Cochabamba, Bolívia, de 20 a 24 de abril de 2022. A CICLA-Sul compreende a Argentina, a Bolívia, o Brasil, o Chile, o Paraguai e o Uruguai. O tema do congresso foi “Descalça-te“. As conferências proporcionaram uma compreensão do que significa ser descalço no contexto da OCDS e algumas formas concretas de o pôr em prática.

O congresso decorreu numa atmosfera de harmonia e fraternidade. Podia-se assistir às conferências tanto em modo presencial como online. Os participantes tiveram a oportunidade de dialogar e aprofundar a sua compreensão dos tópicos apresentados. O congresso foi organizado de forma excelente: houve momentos de trabalho, de reflexão e de recreação fraterna; a comida foi abundante e todos tiveram a oportunidade de provar as especialidades gastronómicas da Bolívia, dado que pratos de diferentes partes do país eram servidos todos os dias.

O 5º encontro OCDS da CICLA-Sul da Bolívia semeou boas sementes em todos aqueles que viveram esta experiência e certamente dará muitos frutos na vida de todos os Carmelitas Seculares nesta região e em todo o mundo. Durante o congresso foi decidido que a próxima reunião da CICLA-Sul teria lugar no Uruguai em 2025.

 

Foi com alegria e gratidão que as formadoras da Associação St. Teresa puderam finalmente encontrar-se presencialmente, pela primeira vez, de 7 a 12 de março deste ano.  Tivemos de cancelar a reunião planeada em novembro de 2020 por causa da pandemia.

Em março, as formadoras vieram de todos os Estados Unidos e de dois mosteiros no Canadá para se reunirem na Louisiana, no ‘Renewal Center’ em Maryhill, para uma reunião presencial, conforme estabelecido pela Cor Orans 119. O nosso encontro foi coordenado pelo Padre Daniel Chowning OCD, que nos deu belas conferências sobre El Arte de buscar el rostro de Dios (este texto, disponível apenas em 4 línguas – italiano, inglês, espanhol, francês –, é um comentário feito pela CIVCSVA sobre Vultum Dei Quaerere). Após cada conferência, dividimo-nos em pequenos grupos para trabalhar sobre as questões que o P. Daniel nos colocava, de forma a ajudar-nos a reflectir mais profundamente sobre os temas tratados.

Foi uma semana muito frutuosa e levámos para as nossas respectivas comunidades muitos pontos de reflexão e um desejo intenso de nos empenharmos numa formação mais profunda. Foi muito útil partilhar com as outras comunidades e com as formadoras a forma como a formação é realizada nas varias comunidades.  Para todas nós, ficou ainda mais evidente quanto o Espírito Santo guia a nossa vida e formação religiosa sob a guia da nossa Santa Mãe a Igreja.  Como diria Santa Teresa, somos abençoadas por nos podermos chamar filhas da Igreja.

 

A Comissão para a actualização da Ratio Institutionis da Ordem, ou seja, a revisão decidida pelo último Capítulo Geral, teve o seu primeiro encontro via Zoom a 4 de abril. A comissão, nomeada pelo Padre Geral, fr. Miguel Márquez Calle, é composta pelos seguintes membros:

Martín Martinez (presidente da comissão – México), Jean-Baptiste Pagabeleguem (secretário – Ibérica, Delegação Provincial da África Ocidental), Daniel Chowing (coordenador – Washington), Halluendo Amit (Filipinas), Thaddeus Dim (Nigéria), Antony-Joseph Pinelli, (Paris), Juan Miguel Henríquez Tobar, (Colégio Internacional, Roma), Johannes Gorantla (Seminarium Missionum, Roma).

Este primeiro encontro foi dedicado ao conhecimento mútuo, à discussão sobre o trabalho formativo e as expectativas em relação à actualização da Ratio. A riqueza da diversidade dos membros da comissão, das culturas e das línguas é um desafio e um elemento construtivo. Um dos desejos da comissão é que a Ratio seja actualizada com critérios práticos e com experiências de apropriação do carisma, e que isto seja feito com a contribuição de todos os irmãos da Ordem e não apenas como fruto das reflexões da comissão. Por conseguinte, os formadores e as pessoas em formação serão convidados, através de um questionário actualmente em elaboração, a darem a sua avaliação da Ratio actual e a sugerirem elementos para a sua actualização.

A próxima sessão de trabalho terá lugar no dia 12 de junho.

 

Os Carmelitas na Áustria comemoram nestes anos:

  • os 400 anos do Carmelo Teresiano na Áustria, com a fundação do mosteiro em Viena a 4 de fevereiro de 1622;
  • os 350 anos da fundação do mosteiro de Linz a 19 de setembro de 1674;
  • os 300 anos da consagração da atual igreja dos Carmelitas em Linz a 25 de setembro de 1726.

As celebrações tiveram início a 28 de maio de 2022, com uma missa solene presidida pelo Cardeal Christoph Schönborn OP, Arcebispo de Viena.

 

Este evento é o primeiro de uma série de iniciativas, organizadas para celebrar os vários anos jubilares. Entre estas inclui-se, por exemplo, uma exposição sobre a Ordem do Carmelo Teresiano “400 Anos de Amizade com Deus. Comunidade – Oração – Dom“, que será inaugurada este verão em Viena e Linz. A exposição apresenta a história da Ordem, mas também a vida quotidiana, os santos e a espiritualidade da Ordem.

O Padre Domingos de Jesus Maria OCD (Domingo Ruzola, 1559-1630), quem fundou a Ordem na Áustria, terá um papel importante nestes anos. Vários livros a seu respeito serão publicados, um simpósio realizar-se-á e dedicar-se-á a ele uma pequena exposição permanente na igreja dos Carmelitas de Viena-Döbling.

Além disso, estão previstas duas exposições de arte contemporânea (de Gottfried Löcker OCDS e Sonja Meller), cujo objetivo é tornar a espiritualidade e o carisma da Ordem do Carmelo Teresiano tangível e exprimível a um novo nível.

As datas exatas de todos estes eventos serão constantemente publicadas na página inicial do Carmelo Teresiano na Áustria (www.karmel.at).

 

A 13 de Maio de 1997, o então General Camillo Maccise criou a Província da América Central, composta por 6 nações: Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala. A 13 de Maio de 2022, celebrou-se o 25º aniversário da fundação da Província da América Central com uma missa na paróquia de San Juan de la Cruz em El Salvador, presidida pelo Bispo Oswald Escobar Aguilar OCD.

Este ano marca também o início de uma nova fase: a 13 de maio, realizou-se o primeiro Encontro Provincial dos Conselhos do Carmelo Teresiano: monjas – frades – leigos. É o fruto de vários anos de colaboração e de diálogo entre os três ramos da Ordem.

Neste aniversário, felicitamos os nossos irmãos e irmãs, agradecendo ao Senhor por todo o trabalho já realizado, e desejamos que o seu lema continue a ser: “Aventuremos la vida”.

 

A 13 de Maio, realizou-se uma Jornada académica no Teresianum (Roma) para celebrar o 25º aniversário do Doutorado de Santa Teresa de Lisieux.

Durante a sessão da manhã, o Prof. P. François-Marie Léthel apresentou “A História de uma alma como síntese teológica”, enquanto o Prof. P. Bruno Moriconi evocou “Teresa de Lisieux, uma mulher forte”. Na sessão da tarde, os professores P. Francesco Asti, Ir. Antonella Piccirilli e P. Emilio Martínez abordaram o tema “Porque é que o Doutorado da Igreja de Santa Teresa de Lisieux é hoje importante?” No canal do YouTube do Teresianum www.youtube.com/c/teresianumroma pode (re)ver as conferências deles.

Às 18 horas, o Padre Geral, Miguel Marquez Calle OCD, Grande Chanceler do Teresianum, prestou homenagem aos Padres Léthel e Moriconi. Manifestou a sua admiração pelos nossos dois professores e agradeceu-lhes por todos estes anos de dedicação ao ensino e à investigação académica. Em seguida, receberam a edição especial da Revista Teresianum elaborada para esta ocasião: “Studi in onore di Bruno Moriconi OCD e François-Marie Léthel OCD”.

Concluímos com as palavras do Padre Geral: “Obrigado, caro Padre e Irmão François-Marie, pela tua paixão e pelo teu entusiasmo em tudo o que fazes e vives. Obrigado porque a tua vida e a tua dedicação são ‘para as almas’. Obrigado pela tua disponibilidade para viver o que Deus te propõe com o espírito de um discípulo, o que é o melhor ensinamento por parte de um verdadeiro mestre. Obrigado, caro Padre e Irmão Bruno, pela tua humanidade, por mostrares o lado mais humano da teologia, por colocares Cristo no centro, pela arte de dizer coisas importantes em palavras simples, por nos ensinares virtudes que são praticáveis pelas pessoas comuns”.

 

A Eucaristia com as Irmãs de Kharkiv é um tempo precioso de oração, ação de graças e canção, que expressa esperança e vida.

Estou muito comovido pelo encontro com elas. Durante a manhã, consumimos o tempo até ao último segundo compartilhando o que foi vivido. As Irmãs sentem necessidade de contar-me o que passaram. O pânico, o medo, o som das bombas a pairar, a incerteza, a resistência a sair até o último momento, um êxodo sem tempo para pensar e a presença do pastor, do bispo, abrindo caminho em uma estrada insegura para chegar até elas, celebrar a Eucaristia, consolar e envolver. Diálogos comunitários com diversidade de opiniões. Dúvidas e oração para pedir luz. O bispo disse uma palavra que deixou todas em choque: “Amanhã, na primeira hora, é preciso sair. O perigo é iminente” (no dia anterior, tinham decidido permanecer, apesar do perigo). Mas, pouco tempo depois, a coisa se tornou ainda mais urgente e sem discussão possível. “Os carros estarão aqui em uma hora e vocês têm que sair”. Consumir o Santíssimo e recolher o estritamente imprescindível… E um caminho de insegurança, evitando zonas de perigo. Quanta angústia para chegar à zona segura. A perda de um dos carros e a preocupação até reencontrar-se. Horas de espera na fronteira e, por fim, deixar para trás a terra que foi lar durante toda a vida para as 8 Irmãs da Ucrânia e durante tantos anos para as três da Polônia e a Irmã da Eslováquia. Tudo empurrou para essa saída quando chegavam as notícias das atrocidades inescrupulosas do exército checheno e russo (em toda a crônica destes dias omiti detalhes desnecessários, que meus ouvidos e meu coração não esqueceram).

Escuto, comovido até às lágrimas. E, enquanto isso, honram-me com cantos de Páscoa e uma alegria que me faz chorar, sem compreender como é possível tanta dor e tanta vida transbordante. É tanta a alegria que percebo nelas por causa de minha visita e minha presença nos dias de mais incerteza, e tanta a minha alegria por sua gratidão. As lágrimas saltam aos olhos da Madre ao contar essas histórias. E também aos olhos das Irmãs.

Perguntam-me que palavra lhes digo para viver este momento. Digo-lhes que o SIM mais importante se pronuncia na terra do presente, seja qual for. Que João da Cruz e Teresa de Jesus viveram o mais fecundo de suas vidas nos momentos mais inóspitos e de maior perseguição, de extrema fragilidade. Que, antes de chegar à terra prometida que Deus lhes queira regalar, este momento que estão pisando é um agora privilegiado de aliança e de entrega. Viemos ao Carmelo para dar a vida. E nunca imaginamos aonde nos levaria o Senhor, mas sabemos que, aonde formos, Ele será nosso lar e nosso consolo infinito. O Carmelo renasce nas horas de máxima pobreza.

Está presente a presidente da Federação, que foi uma mãe para elas, preparando tudo. E também a provincial das Irmãs de São José, que as recebeu neste lugar que tinham preparado precisamente para acolher famílias de refugiados ucranianos: Providência de Deus.

Intercambiamos alguns detalhes. E, sobretudo, abraços tão sinceros, tão necessários nesta hora de frio incerto. Presentearam-me com uma estampa maravilhosa da Virgem da Ucrânia, que agora está ao lado da minha cama.

Despedimo-nos com a bênção, as abençoo e me sinto abençoado por elas. Despedem-se de nós na rua com o violão e o tambor, tão cheias de alegria que não gostaria de deixá-las. Todo o Carmelo ficou encantado com essa comunhão da fraternidade. E toda a Ucrânia pode ter certeza de que o Carmelo inteiro está orando sem trégua e sem respiro para que se faça a paz.

Antes de deixar Czestochowa, fazemos uma visita às Irmãs daqui desta cidade, que estão esperando com tanto entusiasmo a bênção na Igreja. Visita muito rápida e muito agradável.

Termina meu périplo pelas terras da Ucrânia e da Polônia. Nunca esquecerei o que vivi. Abriu-se dentro de mim uma ferida que não quero que seja curada. Custa-me digerir, e a impotência do que vi me deixa sem palavras. Deixei-me atravessar, sem medo de escutar, de ver, de sentir, de chorar, de me indignar… e me deixei abraçar por aqueles aos quais ia consolar. Abracei frades que parecem fortes e consolam a muitos e necessitam ser consolados e apoiados, e me deixei agradecer por seu olhar. Abençoei uma jovem soldada que me pedia que orasse por ela antes de ir à frente de batalha; e me desarmou o sorriso de uma jovem que perdeu tudo o que tinha em sua casa em Mariupol.

Obrigado por me acompanhar neste caminho terrível ao centro da guerra. Estamos todos em guerra. E precisamos estar unidos. Devemos estar preparados com as armas da luz. Que ninguém apague de nós o sorriso e a esperança: é o maior tesouro que trago da Ucrânia. Não são pobrezinhos massacrados, são um povo que ressurgirá de suas cinzas, porque tem fé e, em sua ferida, desperta todos nós a viver e a nos colocar de pé.

Obrigado pela oração de vocês. Minha última palavra é o agradecimento da gente simples, dos frades, das monjas e das Irmãs; o sorriso das crianças e o beijo das avós apertando com força as minhas mãos e beijando-as. Seu agradecimento a todos vocês. Eles sabem que vocês continuarão, que nós continuaremos ao seu lado, aconteça o que acontecer. E vencerá a bondade sobre o horror e a crueldade. Eu prometo a vocês.

Deus abençoe todos nós. “Paz a vós, sou Eu. Não temais” – disse Jesus. “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim”.

 

Amanhece em Gwozdawa. Apresso-me a levantar para participar com eles da hora da oração. Antes disso, rezamos Laudes. E a missa depois, às 07:20h. A igreja foi ficando cheia de pessoas encantadoras. Algumas crianças na primeira fila. Senhoras idosas e algumas de meia idade. O grupo de homens é mais escasso. Jozef celebra e deixa a pregação para mim. Ao começar a missa, Clementina me dirige algumas palavras, acolhendo-me com uma simplicidade e alegria que me comovem.

Em suas palavras expressa a alegria deste pequeno povoado com a minha presença em tempos de guerra e a alegria pelos Padres Maksymilian, Piotr, Jozef no meio deles, a satisfação de ter a missa diária. Dão-me de presente um ovo de Páscoa de porcelana e alguns bombons.

Ao final da missa, nos abraçamos como se sempre tivéssemos sido uma família. Abençoo a todos, um por um, com a imposição das mãos. Presenteio-lhes com os terços que trouxe da Espanha e que foram feitos por Padre Santiago, um frade bondoso e simples, que vive em Madri (tem 90 anos). Agradecem muito esse detalhe. Quando os abençoo, retêm minhas mãos e beijam as duas palmas, como se fosse minha primeira missa. Celebram meu sacerdócio com tanto carinho… Tiro algumas fotos com eles. Depois, mostro algumas dessas fotos e digo a amigos e amigas que me apaixonei por essas pessoas. Sou eu o abençoado.

Tomamos café em um ambiente de festa e alegria. Visito a casa e os arredores com os irmãos. Um lugar de campo tranquilo e silencioso. É só uma comunidade, a de Berdichev, que dá assistência a esse lugar de silêncio e retiro, cuidando da piedade e da confiança deste pequeno povoado, tão cheio de fé e tão provado desde os tempos do comunismo.

Depois de ter completado com Jozef uma entrevista com Irmã Anastasia (das Irmãs Honoratas) para o jornal da Igreja na Ucrânia, nos despedimos, mutuamente agradecidos. Pela manhã, Rafal veio de Berdichev para a despedida. Abraço e bênção aos irmãos.

O caminho para a fronteira é de sete horas, com duas paradas. À medida que nos afastamos do centro do país, percebe-se a vida mais normal, embora haja fiscalizações de tempos em tempos. Mais carros e postos de gasolina inteiros e sem nada quebrado. É estranho, depois dos arredores de Kiev, ver cidades com os edifícios quase todos em pé e sem sinais de guerra.

O caminho com Vitaly e Olek, que voltam a apresentar-se amavelmente para me levar, é animado e cheio de vitalidade amiga. Agradeço muito a sua companhia.

Chegamos à fronteira e sinto pena por ter que me despedir do país, dos irmãos, de Vitaly, mas lhes prometo retornar.

Na fronteira, uma fila de 200 pessoas. Famílias e crianças. Começa a fazer bastante frio. Esperamos mais ou menos uma hora e meia pelo lento fluir da fila. Enquanto isso, voluntários e a Cruz Vermelha nos oferecem água e mantas, bonecos para as crianças, chocolate e chá… Vez ou outra passam pela fila pessoas perguntando do que estamos precisando. Emociona-me essa humanidade a envolver o êxodo dos ucranianos diante do desamor e da barbárie que ontem contemplei.

Finalmente consigo passar pelos dois controles policiais – ucraniano e polonês – depois de tanto tempo em pé. Do outro lado, as ONGs recebem as pessoas e oferecem de tudo. Aceito chocolate dos espanhóis e saúdo outros voluntários.

Andrezj vai me buscar e partimos em direção a Cwestochowa, sem parar em Przemysl. Vou visitar as carmelitas de Kharkiv, que estão hospedadas em um lugar independente e preparado para elas, nas Irmãs de São José. Com muita vontade de abraçá-las.

Chegamos depois da meia-noite. Recebem-me Ana Maria, a priora, e outras duas Irmãs. Saudamo-nos com um abraço longamente esperado. O jantar está preparado. Conversamos sem pressa, apesar da hora (mais ou menos 01:00h). Há tanto coisa para partilhar, tanto consolo nessa fraternidade profunda e verdadeira, que vence todas as fronteiras e alcança a comunhão na linguagem comum de sentir-nos UM. Quanto calor em meio a tanto frio em nosso mundo! Se todos os seres humanos pudessem desfrutar desse carinho de irmãos que é regalado a mim. Se as meninas violadas ou as pessoas baleadas, as famílias bombardeadas ou as pessoas desprovidas de lar pudessem sentir dentro de si esse calor da Ressurreição e o calor do que há de melhor no ser humano… Mas esse sonho ainda não se realizou nesta terra ferida. E não dramatizamos reconciliações inexistentes, porque Rússia e Putin continuam em seu empenho de massacrar a Ucrânia, à qual chamam “fascista” – cruel ironia! –, mas oramos com violência pacífica para que verdade e justiça sejam feitas. E, sim, que haja o perdão que cure e liberte as vítimas machucadas e os verdugos cruéis; e que haja a graça que cure a dor profunda da Cruz de nossos dias e encha o sepulcro vazio de um anúncio de vida nova e invencível. Mas ainda é a guerra e ainda não há nenhum sinal de consciência da parte daqueles que a alimentam e daqueles que nela consentem. As bombas ainda apitam no ar e desabam sobre Lviv enquanto passamos por seus arredores ao cair da tarde desta segunda-feira de Páscoa. E ainda temos tanto para orar e tanto para despertar e tantos a quem abraçar e consolar, sem nos render.

Não nos enganemos. O perdão de Jesus na Cruz também está em nossos lábios e em nosso coração: “Perdoa-os, porque não sabem o que fazem”. E o dizia da Cruz. Mas as raízes do mal e do horror estão escondidas e vivas nesta terra em que pisamos, em suas botas dispostas a continuar pisoteando seres humanos indefesos. Temos o dever moral de nos armar para esta guerra. Convido-os a denunciar a violência dos pacíficos, encarando tanta hipocrisia política, tanta mentira ideológica e tanto silêncio covarde; a fazer uma frente comum de Evangelho valente com uma oração e uma vida, sem voltar atrás.

Perdoem este desabafo. Cansa-me tanto a política de nossos dias. Respeito os políticos que servem ao povo, que não dizem mentiras, que lutam sem ser escravos de ideologias de partido, os políticos que não buscam poder e que não são narcisistas. Os que constroem para todos. Não posso suportar que continuemos discutindo se estamos a favor da Rússia ou dos Estados Unidos, se somos de direita ou de esquerda, se somos do Papa Francisco ou de Bento XVI… caindo em uma armadilha estúpida que não nos deixa ver a realidade do mal que nos assombra. E a demência de dirigentes sem escrúpulos.

Termino o dia esgotado e feliz por estar com minhas irmãs.

 

Em toda a minha vida, nunca esquecerei este domingo da Ressurreição. Nunca.

Amanhece a Vida. Ainda mais em um dia como hoje, dia de Páscoa. Mas essa vida nasceu para nós no suplício da Cruz e se fez luz no sepulcro vazio.

Às 08:00h, começa a celebração da Eucaristia em nossa paróquia da Exaltação da Santa Cruz, de Kiev, com uma procissão com o Santíssimo ao redor da paróquia. Faz muito frio, mas a pequena igreja está cheia. A procissão é toda uma metáfora da própria vida. Em meio à morte, cantamos a alegria e a confiança em sua Ressurreição. Na celebração há vários soldados e policiais de uniforme, que vivem intensamente o momento.

O Padre Benedict preside e o sacerdote Maciej prega. A organização deste – PRO SPE – viaja quase todas as semanas à Ucrânia para ajuda humanitária. Suas palavras e presença são também um dom de comunhão eclesial nestes dias.

Ao finalizar a missa, agradecimento muito emocionado das pessoas. Presenteiam-me com um suéter que diz “Viva a Ucrânia” e algumas flores amarelas. Dois leigos da paróquia me agradecem a valentia de vir como o pastor no meio das ovelhas em perigo e agradecem pela vida dos carmelitas que ficaram para acompanhar e cuidar das pessoas. Dizem-nos que também eles necessitam do cuidado e apoio de todos para continuar sustentando e animando os demais. Cantam para mim uma canção emocionante, que diz: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Agradeço vivamente seu precioso e simples discurso e expresso o orgulho por meus irmãos, por sua entrega e por estarem aqui. Nomeio cada um e agradeço por suas vidas. Bendigo a vida de todos os presentes. Nunca esquecerei este domingo da Ressurreição. Ao terminar, entrego-lhes um presente: uma relíquia de Santa Teresinha e de seus pais, Zélia e Luís. E também de Míriam de Belém, invocando a bênção para todos eles, para suas famílias e as famílias que sofreram alguma perda importante nestes dias, para que Teresinha ilumine a noite de nossos dias e para que Míriam nos faça viver o Deus da vida na humildade e no nada do sepulcro vazio, na plenitude da misericórdia. Celebram o presente com muita alegria.

Depois da missa, sou abençoado com seus abraços e seu sorriso. Todos expressam a saudação da Páscoa em ucraniano.

Tomamos o café da manhã, que aqui é como um almoço. De fato, faremos a próxima refeição por volta das 18:00h.

E tomamos a estrada – Benedict, Jozef, Maciej, Bogdan (amigo voluntário) e eu – rumo a lugares muito significativos e chocantes.

Em primeiro lugar, visitamos o seminário maior de Kiev (Worzel), que está em um bosque, no campo, a alguns quilômetros da cidade. Somos recebidos pelo reitor – Padre Ruslan, jovem, magro, com batina e agasalho de frio – e alguns voluntários e pessoas que trabalham com ele na ajuda humanitária às famílias. O seminário foi saqueado pelos russos, que levaram tudo o que quiseram. No pátio do seminário caiu uma bomba de fragmentação, cujos efeitos nos horrorizaram. Alguns fragmentos dos estilhaços entraram pelas janelas e impactaram a Virgem de Fátima, arrancando-lhe a cabeça. Comprovamos o buraco do projétil no pátio e o seu poder de destruição.

Padre Ruslan e outros voluntários nos acompanham durante todo o dia ao lugar seguinte, que é o acampamento dos russos, os responsáveis pelos massacres de Bucha, no bosque. Com cuidado, adentramos em meio às árvores. Encontramos tudo tal como o deixaram há quinze dias: os esconderijos escavados no solo, as instalações provisórias. Absolutamente tudo nos deixa perplexos e com a alma atravessada por perguntas sem resposta: como o ser humano pode chegar a tanta atrocidade em pleno 2022? Não é um filme, não é uma reportagem em preto e branco do ano de 1942, não é uma biografia que fala de Auschwitz. Os russos se foram daqui há quinze dias e, só de pensá-lo, fico arrepiado. As frutas estão nas caixas, a cafeteira, as meias estendidas, as garrafas de vodca vazias, as botas no chão, as caixas russas que contêm a comida, pastilhas de vitaminas etc. etc. Pisamos esse chão com cuidado, com medo de que tenham deixado alguma mina terestre, mas queremos ver e ser testemunhas para poder contar ao mundo o que vimos. Uma história real, não de ficção científica. A alma encolhida, indignada, perfurada dos pés à cabeça como uma bomba de fragmentação. Meu Deus, como é possível? Daqui iam aos povoados vizinhos e cometiam atrocidades. Daqui recebiam de seus superiores o encargo de fazer livremente o que quisessem. Falo com Josef, pensando em voz alta: eles também devem ter mãe, irmãs, avós e filhos. Então, como se pode ferir a vida a tal ponto?… Ficamos em silêncio e oramos. Fazemos o caminho do horror pelas ruas de Borodzianka, Bucha e Irpin. Não posso descrever com palavras aquilo que vimos. Vocês vão ver algumas fotos. E lhes peço que não deixem de olhar, porque esse filme é real e as vítimas merecem que olhemos, que despertemos e que nossa vida se torne consciente. Tanques destroçados, casas queimadas, edifícios em ruínas, hospitais esvaziados, um espetáculo sinistro, demoníaco… pontes destruídas, carros revirados. E a sensação de estar sendo testemunhas privilegiadas e atônitas de que os Hitler e os Stalin, os Mussolini e os Pinochet, os Gadafi não desapareceram do cenário humano, mesmo que nos custe acreditar. Também uma massa imensa enfurecida aclamava a Hitler e o saudava como o salvador. Por favor, não suportarei que ninguém justifique esse horror com bondades ideológicas de qualquer natureza que sejam.

No centro de Bucha, onde depositaram os cadáveres de 98 pessoas abatidas a tiros, oramos atordoados no lugar da fossa comum. E daí mesmo enviamos a toda a Ordem a nossa mensagem de felicitação pela Páscoa. Neste sepulcro vazio e real, Jozef, Benedict, também Marek – que ficou na paróquia – e eu expressamos a comunhão de todo o Carmelo ucraniano com a Ordem.

Junto a uma porta, no chão onde esteve o cadáver de um ancião, colocaram algumas flores amarelas. Rezamos a Maria e oramos por todos. Cristo venceu a morte. Cristo ressuscitou. Não estão aqui, já estão na casa da vida. Desfrutam da paz de Deus no lar sem fim.

Abraço Ruslan, o jovem reitor que tão amavelmente nos acompanhou e que esteve em contato com todos os protagonistas e com as famílias das vítimas, e prometemos rezar uns pelos outros. Digo-lhe que o Carmelo orará pelos 25 seminaristas de Kiev e por ele. Um abraço muito emocionado.

Tomamos o caminho para a paróquia de um sacerdote dehoniano, Tadeusz, que permaneceu aqui nos tempos mais difíceis, em Irpin, uma das cidades massacradas. Mostra-nos sua capela, dedicada a Santa Teresinha. Entregamos-lhe uma lareira para aquecer a paróquia, que trazíamos conosco o dia todo no furgão de Maciej.

Voltamos à casa para um programa da rádio argentina. E visitamos Verônica e Alexandre, membros do Carmelo Secular de Kiev. Recebem-nos com muito carinho em sua humilde casa, também atingida por uma bomba de fragmentação. Verônica nos fala com entusiasmo do Carmelo Secular e nos entrega alguns presentes e um livro publicado em ucraniano com textos dos santos do Carmelo, uma das poucas coisas publicadas sobre nossos santos. Eles nos contagiam com seu entusiasmo. Oramos por todo o Carmelo Secular em Kiev e na Ucrânia.

Retornamos à paróquia. É muito tarde. O toque de recolher é às 22:00h. Abraço muito emocionado de ambas as partes.

Sinto-me muito feliz por vê-los confortados. Sinto-me muito contente por ter chegado a Kiev e ter me deixado tocar por seu testemunho e sua presença paterna e fraterna com as pessoas simples. São um sacramento vivo da proximidade de Deus para com cada ser humano. Deus os abençoe, meus irmãos. Sinto-me orgulhoso. E me despeço desejando-lhes, em polonês, ânimo e coragem.

Saímos de Kiev com dificuldade. O GPS não sabe de barricadas e ruas interditadas. Conseguimos sair da cidade depois de um tempo. Temos pouca gasolina, só para uns 40 quilômetros. E nos restam uns 150. Jozef reza ao Espírito Santo e diz que isso nunca lhe falha. Passamos por muitos postos de gasolina fechados. Já é muito tarde. Imagino-me dormindo no carro. Mas, ao passar por um posto de gasolina, vemos uma luz e conseguimos, não 20, mas 30. E o senhor que vende desabafa com Jozef, contando seus sentimentos. Ao final, faz com as mãos um gesto de oração.

Antes de chegar, muitas inspeções militares. Pedem-nos a documentação. Rezamos Vésperas e Completas. Oramos por todas as pessoas que encontramos, suplicamos a Deus a paz e o fim de tanto mal. Nosso caminho nos leva, quase quatro horas depois de sair, a  Gwozdawa, uma casa tranquila no campo, na qual os frades celebram diariamente com o povo, uns cem habitantes.

Maksymiliam, o superior, nos recebe. Já está muito tarde. Já passou das 23:00h. E o dia foi cansativo, impressionante, atordoante.

Cristo Ressuscitado, cura a terra da Ucrânia, cura suas feridas. Cura nosso mundo.

 

É dia de silêncio, atordoante experiência de profundo vazio, na calidez ferida de Maria, a Mãe; no coração de todas as mães, que representam a alma vigilante do mundo e sempre abrigam, em meio a tanta dor, a esperança. Como é surpreendente o dia de hoje, como um abismo de silêncio que encerra algo que ainda não conhecemos e que é sempre rebento! E que amanhecerá… sempre amanhece.

Faltam alguns minutos para as 08:00h em Berdichev e saudamos o Senhor e sua Mãe na basílica. Preparamo-nos para a viagem a Kiev.

Vitaly e seu irmão Olek me levam. É um caminho de três horas, mas depende do trânsito e das dificuldades da entrada. Passamos sem dificuldade por algumas fiscalizações.

Disseram-nos que houve algum projétil sobre Kiev.

Chegam algumas vozes de gente amiga da Espanha e de outros cantos com notícias de perigo em Kiev…

Paramos para tomar um café e abastecer. Só é permitido comprar 20 litros de gasolina a cada vez, mas a moça que atende é da paróquia e enchemos o tanque. Além disso, Vitaly é “famoso” por essas bandas.

Nossa conversa prossegue, muito animada, por todo o caminho.

À medida que nos aproximamos de Kiev, vemos o horror da guerra: tanques, caminhões, casas, edifícios queimados e com marcas de tiros, como esvaziados de sua alma. Casas e restos de veículos que cheiram a um sábado santo desolado, sem vida, sem aparente ressurreição.

Damos uma volta para entrar em Kiev, evitando a estrada principal. Uns 30 quilômetros de volta.

Chegamos à nossa paróquia em Kiev. Josef nos recebe. Quanta alegria por abraçá-lo! Que alegria ter chegado e estar aqui! Aqui se encontra Marek, pároco e prior. E também Benedict, que está encarregado da ajuda humanitária e da atenção aos soldados: nossos três carmelitas agora em Kiev. Hoje está aqui Maciej, um sacerdote polonês que tem uma organização internacional e traz ajuda humanitária à Ucrânia. E, desde a destruição de seu povoado, também estão hospedados um pai e um filho: Andrzej e Daniel.

Alegria do encontro com os irmãos e almoço com Josef e Marek, informando de muitas coisas da guerra e da pastoral destas semanas. Marek fala dos horrores da guerra e mostra as fotos dos bunkers; fala também da atenção aos enfermos e da atividade intensa como pároco. Durante algum tempo, esta foi a única paróquia católica de Kiev. Quando veio Madre Teresa de Calcutá, depois do prêmio Nobel da paz, pediu para ir à missa e a trouxeram à nossa igreja. É uma igreja pequenina e acolhedora. Acompanho Josef na bênção dos alimentos, que é costume típico daqui: os primeiros alimentos que são tomados na Páscoa, doces, ovos de Páscoa e outras coisas. Swieta trouxe ovos de Páscoa para os frades. Dá-me um abraço com muito carinho e me pede a bênção.

Saímos para ver Vitaly, o bispo de Kiev, que nos recebe num lugar muito simples. É jovem, muito cordial. Conversa muito familiar. Agradece-me muito por estar aqui e agradece muito ao serviço pastoral e à entrega dos carmelitas na Ucrânia. É uma hora de diálogo sobre a situação e a Igreja na Ucrânia. Falo-lhe da oração de todo o Carmelo no mundo inteiro: nossa oração por ele, pela Igreja e o povo ucraniano.

Josef me perguntou se não tinha nada para lhe dar de presente e, ao sair, disse ao Senhor: “Vamos ver… o que posso lhe dar de presente, se não me resta nada especial na mochila?” Estava falando com o bispo, penso e meto a mão em meu bolso, descobrindo que tinha uma relíquia do cabelo de Santa Teresinha. Dou-a a ele, que nos diz que é sua santa preferida… Surpresas do Senhor!

Damos uma volta pelo centro da cidade, pela famosa praça de Maidán, a praça da independência da Ucrânia, onde em 2014 morreram baleadas 98 pessoas. Visitamos o lugar da memória dos caídos e pedimos por eles.

Voltamos para casa, visitando alguns lugares destruídos pelos projéteis…

Oramos pelas pessoas que moravam nesses edifícios agora desolados.

É hora de preparar a vigília…

Emoção com toda a Ordem diante dessa noite.

Recordamos Síria, Burkina-Fasso, Peru, Colômbia, Congo, Líbano, Iraque…

Oramos como UM só… pela VIDA QUE NÃO MORRE nem é capaz de ser destruída por nenhuma bomba…

A chegada a Kiev é outro capítulo, diferente de Berdichev… porque aqui se sente o terror da guerra ainda mais patente… os sinais estão frescos e o relato das pessoas é constante… Não posso contar nesta crônica tudo o que escutei. Um dos frades me perguntou se me importava que me contassem esses horrores e lhe disse que não… foram tempos muito longos de conversa. Omito detalhes. Os frades estão em contato com dois capelães que acompanham os soldados e eles mesmos confessam os soldados. Entreguei uns trezentos rosários destinados aos soldados.

A celebração da vigília é simples e emocionante. A capela me parecia uma pequena arca de Noé, um recinto de salvação. A liturgia começa na rua, com uma humilde fogueira e um frio congelante. A duras penas conseguimos manter a chama da vela acesa depois de várias tentativas.

Eu prego e Josef traduz para o ucraniano.

Ao final da celebração, cantos e alegria compartilhada. Longa fila de gente para um abraço, uma bênção e para agradecer muito vivamente por eu estar aqui. Uma jovem me disse que em seu trabalho há 400 pessoas e que 200 fugiram para pôr-se a salvo em um lugar seguro; e que o fato de eu ter vindo era para ela um sinal especial. Assim, casais e famílias passavam para ser abençoados e abraçados. Não me parece estar em um lugar de guerra, há uma sensação fortíssima de comunhão e cumplicidade… uma jovem que perdeu sua casa em Mariupol e agora nos ajuda… uma jovem soldada que me pede a bênção antes de ir para a linha de frente. Dou-lhe meu terço de presente.

E o dia termina com uma conversa amigável, por um tempo de duas horas, com Josef, Marek, Benedict, o sacerdote Maciej, Andrzej (pai) e Daniel (filho). Que tempo mais intenso de experiências vividas. Quanta necessidade têm de contar o que viveram e o que sabem… quanto agradecem a presença. Digo-lhes que toda a Ordem está aqui com eles.

O dia termina, amanhã vamos visitar Bucha, a cidade do massacre. E também outra das cidades mais devastadas, o seminário e outros lugares. Mas amanhã será outro dia; hoje, nas pessoas de Kiev, o Senhor Jesus ressuscitado apareceu para mim sorridente e me abençoou com seu sorriso… uma jovem me abençoou espontaneamente.

Em Berdichev escutei as sirenes cinco vezes; em Kiev, apenas uma, ao sair do bispado. Mas ninguém já está descendo aos bunkers. Se algo cair, cairá; se algo acontecer, acontecerá. Mas hoje Cristo ressuscitou para mim na fé de um povo, em sua esperança. Que homem de sorte por estar aqui! E que vocês estejam aqui comigo!

FELIZ PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO… Ressuscitou o meu Amor e a minha Esperança.

 

Hoje celebramos a Paixão e morte de Jesus nesta terra ferida pela guerra, com os crucificados e as vítimas de todas as guerras e injustiças.

O som das sirenes, que não para durante uns quinze minutos (até às 06:00h), me desperta. Sirenes e som de sino que avisam do perigo. Parece uma nova ofensiva aérea. Não sei.

Às 08:00h celebramos o Ofício das Leituras e as Laudes com cantos muito bonitos. Desde essa hora há na igreja um grupo de umas cem pessoas. E começa a jornada, acolhendo as surpresas do dia, diante de Jesus.

Visito o convento e o bunker debaixo da igreja, que o prefeito pediu que estivesse disponível para quando faltasse lugar para as pessoas se refugiarem. Nos primeiros dias da guerra vinham dormir com frequência nesse lugar.

Com Vitaly, visito as Pequenas Irmãs do Imaculado Coração, também conhecidas como Honoratas, as Irmãs que nos hospedaram no primeiro dia depois que passamos a fronteira. Passamos um longo tempo de partilha, sem pressa, com as quatro Irmãs. É uma casa para retiros e acolhem algumas crianças durante o dia. Uma delas, a mais jovem, faz uma entrevista comigo para um jornal católico da Ucrânia. Pergunta qual a minha impressão da situação na Ucrânia e do que estou vivendo. Conto a ela meu desejo de chegar aqui para celebrar a Páscoa, para estar com meus irmãos e as pessoas, tornando presente a unidade e o carinho de toda a Ordem do Carmelo e da Igreja. A união nos faz fortes diante de toda ameaça.

Hoje alguns de nós não almoçamos, como gesto de comunhão com Jesus e com os que são feridos pela fome e pela injustiça.

Por volta das 16:00h, Rafal convocou um grupo de coroinhas e adolescentes, chamado Oásis, com os quais costuma se reunir todos os domingos para partilhar e também para fazer algumas atividades: cantam, brincam, rezam e se animam mutuamente.

À tarde, às 17:00h, via-sacra emocionante. Pedem-me para levar a cruz durante as três primeiras estações. É uma honra. Na terceira, já me pesa muito. Mas aqui nada é romantismo e tudo tem o peso de uma realidade que dói. A liturgia não é teatro, fala de uma via crucis real e sangrenta. Vou continuando as estações e descubro atrás de mim um pequeno exército de meninas que, muito recolhidas, acompanham as estações. Uma delas reparte dissimuladamente alguns caramelos com as companheiras. Duas delas estão com seus pais na linha de frente da guerra.

Às 18:00, celebração da Paixão do Senhor. A celebração dura duas horas. Ninguém se senta na Paixão. Idosos e crianças estão firmes, com uma devoção sem um assomo de pressa. Fico edificado e emocionado.

As Irmãs de Santa Teresinha, que acompanham todo o trabalho do santuário, trabalham com os capelães, que estão à frente. Entrego-lhes parte do carregamento de rosários que estou trazendo, que os soldados pediram.

Depois das celebrações, despedida dos irmãos, que perguntam com interesse como passei aqui estes dois dias. Querem saber se me senti bem. Digo-lhes que não bem, mas muito feliz por estar com eles e orgulhoso de que estejam aquecendo as pessoas e sendo Jesus no meio delas. E sinto-me abençoado pela Fé e o calor desta Igreja unida.

Os irmãos não demoram a ir para a cama. Em seus rostos vê-se o cansaço e a entrega.

Comunhão e silêncio com todos os que celebram a Paixão de Jesus em todo o mundo.

 

No café da manhã colocam três jacintos ao lado do prato de cada um, para celebrar nosso sacerdócio. A Irmã Alina faz uma homenagem a nós. Diz que estão nos felicitando e, com os três narcisos, pedem para nós a Fé, a Esperança e a Caridade.

Fazemos caminho para Berdichev. São sete horas.

Caminho cheio de buracos em alguns trechos.

Muitas barricadas de controle e muitos soldados em todo o caminho. Passamos sem problemas e sem que nos parassem.

Passamos por algumas cidades nas quais se veem os efeitos das bombas.

Saímos às 07:20h e chegamos a Berdichev às 14:20h.

Toda a comunidade de irmãos nos recebe. Faço uma visita ao santuário, à nossa Mãe do Carmelo. Comemos um prato típico ucraniano. Conversamos animadamente.

Em pouco tempo, às 18:00h, teremos a celebração da Ceia do Senhor. É surpreendente estar aqui e ver a alegria e a vivacidade dos irmãos. Deus os abençoe.

Tarde de quinta-feira santa – Igreja-santuário da Virgem do Carmo de Berdichev, patrona dos católicos ucranianos. Precioso ícone da Mãe com o escapulário, oferecendo sua proteção. Igreja cheia. Idosos, jovens e crianças… um grupo considerável de coroinhas em perfeita harmonia vaticana abre a celebração com escrupulosa ordem. Devo dizer que poucas vezes na vida celebrei uma quinta-feira santa com tanta emoção contida. Os cantos, a atenção a cada detalhe, o cuidado com as flores, acólitos que ajudam alguém a vestir-se com as roupas da missa…

Lavo os pés da comunidade dos frades. Aqui é costume fazê-lo com um avental como aqueles de cozinha. Significativo. Beijo os pés de meus irmãos, que aqui cuidam de toda essa gente. Beijo a Jesus neles.

Embora seja Vitaly, o prior (ucraniano), que presida, eu faço a homilia explicando o mistério que está sendo celebrado, com exemplos da guerra e da atualidade destes dias. A fração do pão recorda os corpos partidos de tanta gente em algumas cidades. Amanhã o corpo partido de Jesus continua a ser um mistério que não compreendemos e que assim, aparentemente derrotado, deu a vida ao mundo.

Ao terminar a missa, como descrever o ambiente de família e o carinho das pessoas? Saúdam os sacerdotes com um afeto comovente. Todos nos felicitam e nos abraçam. Trazem frutas, flores e presentes. Todos querem fotos. Todos dizem palavras de agradecimento por estar com eles. Falam-me para agradecer a todos vocês pela oração pela Ucrânia. Uma avó me pede que, quando for a Roma, diga ao Papa que, por favor, venha.

Ao sair da igreja, outro tempo muito cordial de diálogo com voluntários, famílias, amigos.

Jantar descontraído e muito fraterno.

Um tempo de recreação muito agradável, sem vontade de terminar. Celebra-se a presença do Geral e também de Pawel, que desde o início da guerra está vivendo do outro lado, na Polônia, para organizar a ajuda humanitária e o transporte de material, duas vezes por semana. Nossa conversa sem silêncios, intensidade de temas e perguntas deles sobre frades conhecidos e minhas sobre a situação e o momento que estão vivendo.

São cerca de 22:00h na Ucrânia. A sirene começou a tocar durante alguns minutos. Anuncia que algum projétil saiu do território bielorrusso.

Mas os frades prosseguem sua amigável conversação, sem ficar muito assustados. Preocupam-se se estou com medo. Confio em sua serenidade.

E assim termina o dia… com a forte sensação de comunhão e família em tempos de guerra. Antes de dormir, outro toque de sirenes e uma súplica pedindo a paz.

 

Frei Miguel Márquez, ocd

 

Pawel e Piotr vão buscar-me no aeroporto de Cracóvia. Chego às 08:30h. Vamos às carmelitas de Lobzowska, em Cracóvia. Comunidade muito alegre.

Encontramos as Irmãs de Kiev, que estão alojadas aqui há um mês.

Diálogo intenso e emocionado. Sinto muito alegria por encontrá-las, tivemos muitas partilhas nos tempos mais difíceis da guerra e na saída para a Polônia. Querem contar e dizer tudo o que viveram.

A Eucaristia é celebrada em latim.

Almoçamos com elas e saímos para o convento de Przemysl, na fronteira. Christof, o prior, nos recebe. E passamos uma hora conversando com os irmãos da comunidade.

Saímos em direção à fronteira: eu, Piotr, Pawel Baraniecki e Pawel Ferko, que pertence à comunidade de Berdichev e desde o começo da guerra está em Przemysl para organizar as ajudas e os carros que são enviados duas vezes por semana da Polônia para Berdichev com alimentos, roupa para os soldados, coletes à prova de balas, geradores, binóculos com visão noturna etc.

Chegamos à fronteira e atravessamos a pé. Piotr e Pawel ficam do lado polonês. Antes da fronteira, encontramos uma multidão de ONGs de todo o mundo para dar apoio e suporte aos que chegam do lado ucraniano: alimentos, roupas etc.

Encontramos um grupo de espanhóis jovens que, por conta própria, vieram de Cádiz, Málaga, Barcelona… e montaram sua tenda no corredor de entrada com outra multidão de organizações. Perguntam-nos se vamos celebrar os ofícios na fronteira, porque desejariam viver esses dias da Semana Santa.

Pawel e eu atravessamos com relativa facilidade a fronteira polonesa e ucraniana. Há muita gente do lado ucraniano esperando passar para a Polônia. Muitas famílias e crianças.

Do outro lado, espera-nos Rafal Myszkowski, que fez um caminho de sete horas para vir nos buscar.

Nesses dias, a saudação é Dobryy vechir/den. My z Ukrayiny, isto é, Boa noite/ Bom dia, somos da Ucrânia.

Hoje passamos a noite em Mostyska, nas Pequenas Irmãs do Imaculado Coração de Maria, fundadas por um capuchinho – Padre Honorato Kozminsky. As Irmãs Alina e Edithson são a amabilidade personificada. O jantar, a acolhida, o quarto, tudo foi muito primorosamente preparado.

 

A Festa do Menino Jesus foi magnificamente celebrada pelo Carmelo de Koteshwar (Kundapur, Índia). Os fiéis reuniram-se para ouvir o Frei Prakash e a sua equipa que pregaram o tríduo em preparação para a festa.

No dia 26 de fevereiro, às 5 da tarde, o Padre Praveen Frank, Vigário Regional da Missão Carmelita na Tanzânia, presidiu à Eucaristia e deu o sermão. O Padre Prakash D’Souza, para concluir os três dias de retiro, animou a adoração eucarística de uma hora antes da missa solene. Em seguida, agradeceu calorosamente a todos os benfeitores que possibilitaram uma celebração tão bonita. O Padre Alwyn Sequeira, Superior do Convento, agradeceu a todos os participantes pela sua generosa cooperação o que tornou o tríduo um sucesso. O Padre Deep Fernandes preparou a Liturgia e o Padre Alwyn dirigiu o coro. Cerca de 20 sacerdotes e religiosos diocesanos participaram na Eucaristia.

Previamente, o P. Prakash D’Cunha, Conselheiro Provincial, inaugurou o recém-construído salão e quarto para hóspedes. O Padre Archiebald Gonsalves, ex-Provincial dos Carmelitas, abençoou o novo edifício.

Após a missa, realizou-se uma refeição festiva com a participação de todos os presentes.

 

Além do retiro anual dos Carmelitas e do encontro desportivo entre Padres e estudantes que normalmente conclui este belo momento fraterno, este ano novo de 2022 começou com a graça da profissão solene de três irmãos e a sua ordenação como diáconos. Tendo a crise do covid diminuído um pouco, o Estado autorizou a abertura das igrejas e as celebrações sem restrições particulares. Foi bom ver novamente as famílias dos Irmãos e a alegria dos encontros após meses de silêncio e distância.

Estamos lentamente saindo do período ciclónico no Oceano Índico. É um tempo de graça para algumas regiões desérticas ou quase desérticas, mas para a maioria das pessoas, é um pesadelo anual. Desta vez, dois ciclones tropicais intensos causaram muitos danos em Madagáscar (Batsirai e Emnati), bem como uma tempestade tropical moderada, a primeira deste ano. Ainda estamos no processo de avaliação dos danos, tanto humanos como materiais. Para nós, é o convento de Manakara, na costa leste da ilha (geralmente o mais afectado), que sofreu muito com a passagem destes ciclones, com destaque para o colapso de parte do muro.