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15 maio 2022

15 de abril de 2022 – Sexta-feira santa

Hoje celebramos a Paixão e morte de Jesus nesta terra ferida pela guerra, com os crucificados e as vítimas de todas as guerras e injustiças.

O som das sirenes, que não para durante uns quinze minutos (até às 06:00h), me desperta. Sirenes e som de sino que avisam do perigo. Parece uma nova ofensiva aérea. Não sei.

Às 08:00h celebramos o Ofício das Leituras e as Laudes com cantos muito bonitos. Desde essa hora há na igreja um grupo de umas cem pessoas. E começa a jornada, acolhendo as surpresas do dia, diante de Jesus.

Visito o convento e o bunker debaixo da igreja, que o prefeito pediu que estivesse disponível para quando faltasse lugar para as pessoas se refugiarem. Nos primeiros dias da guerra vinham dormir com frequência nesse lugar.

Com Vitaly, visito as Pequenas Irmãs do Imaculado Coração, também conhecidas como Honoratas, as Irmãs que nos hospedaram no primeiro dia depois que passamos a fronteira. Passamos um longo tempo de partilha, sem pressa, com as quatro Irmãs. É uma casa para retiros e acolhem algumas crianças durante o dia. Uma delas, a mais jovem, faz uma entrevista comigo para um jornal católico da Ucrânia. Pergunta qual a minha impressão da situação na Ucrânia e do que estou vivendo. Conto a ela meu desejo de chegar aqui para celebrar a Páscoa, para estar com meus irmãos e as pessoas, tornando presente a unidade e o carinho de toda a Ordem do Carmelo e da Igreja. A união nos faz fortes diante de toda ameaça.

Hoje alguns de nós não almoçamos, como gesto de comunhão com Jesus e com os que são feridos pela fome e pela injustiça.

Por volta das 16:00h, Rafal convocou um grupo de coroinhas e adolescentes, chamado Oásis, com os quais costuma se reunir todos os domingos para partilhar e também para fazer algumas atividades: cantam, brincam, rezam e se animam mutuamente.

À tarde, às 17:00h, via-sacra emocionante. Pedem-me para levar a cruz durante as três primeiras estações. É uma honra. Na terceira, já me pesa muito. Mas aqui nada é romantismo e tudo tem o peso de uma realidade que dói. A liturgia não é teatro, fala de uma via crucis real e sangrenta. Vou continuando as estações e descubro atrás de mim um pequeno exército de meninas que, muito recolhidas, acompanham as estações. Uma delas reparte dissimuladamente alguns caramelos com as companheiras. Duas delas estão com seus pais na linha de frente da guerra.

Às 18:00, celebração da Paixão do Senhor. A celebração dura duas horas. Ninguém se senta na Paixão. Idosos e crianças estão firmes, com uma devoção sem um assomo de pressa. Fico edificado e emocionado.

As Irmãs de Santa Teresinha, que acompanham todo o trabalho do santuário, trabalham com os capelães, que estão à frente. Entrego-lhes parte do carregamento de rosários que estou trazendo, que os soldados pediram.

Depois das celebrações, despedida dos irmãos, que perguntam com interesse como passei aqui estes dois dias. Querem saber se me senti bem. Digo-lhes que não bem, mas muito feliz por estar com eles e orgulhoso de que estejam aquecendo as pessoas e sendo Jesus no meio delas. E sinto-me abençoado pela Fé e o calor desta Igreja unida.

Os irmãos não demoram a ir para a cama. Em seus rostos vê-se o cansaço e a entrega.

Comunhão e silêncio com todos os que celebram a Paixão de Jesus em todo o mundo.